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Entrevista

Mario Mikosz fala sobre os 62 anos de experiência em rádio

Comunicador iniciou em 1958 e continua em atividade como colaborador voluntário

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Mario Mikosz é natural de Curitiba e reside em Paranaguá há mais de 60 anos. Iniciou em um tempo em que a rádio era a principal fonte de informação da população. Atravessou meio século se adaptando as constantes mudanças e hoje com a experiência profissional ele explana com tranquilidade sobre sua profissão.    

A aposentadoria chegou em 2002, mas isso não foi motivo para afasta-lo dos microfones. A paixão é tão grande que ele continuou exercendo a atividade de voluntariamente. Viúvo desde 2011, Mário Mikosz tem em sua residência inúmeras placas e troféus que recebeu ao longo da vida como consequência do seu trabalho.

É sobre sua vida ligada à radio que ele fala nesta entrevista. Confira

Folha do Litoral News – Como iniciou sua trajetória na radio?

Mario Mikosz – Antes de  1958 morava em Curitiba, onde era funcionário público e trabalhava no departamento de água e esgoto. Colaborava com a rádio Santa Felicidade, uma emissora católica, na parte da rádio teatro. As pessoas começaram a me incentivar dizendo que eu tinha uma voz boa e assim fui me iludindo. Achei melhor voltar para minha terra onde estavam  meus pais e tentar fazer um estágio. Cheguei a Paranaguá e fui falar com o padre Armando Russo de saudosa memória. Ele inclusive na época aceitou que eu fizesse um estágio, isso em 1958, por apenas 30 dias na antiga rádio difusora de Paranaguá, a ZYC5.  Era a única emissora da cidade. Após os 30 dias eu ia voltar à Curitiba, foi quando o padre me fez a proposta de contrato para trabalho efetivo.

Folha do Litoral News – Como era trabalhar na comunicação na década de 1960?

Mario Mikosz – Era difícil em vários sentidos.  A comunicação envolvia o comércio local, e nós fazíamos a  propaganda ao vivo, e ainda lidava com as músicas colocando os discos. Era tudo manual, e não tinha muitos botões para facilitar, como existe hoje. Sempre que terminava uma música a gente tinha que falar alguma coisa, e isso nos deixava preso no estúdio durante o tempo todo de trabalho. Não existia gravador era tudo ao vivo e a população nos acompanhava. Existia muita dificuldade, tínhamos que ter saúde para aguentar, pois eram 4 horas sem parar fazendo tudo ao mesmo tempo, até notas de falecimentos e aniversários. Era um contato direto com a população. 

Folha do Litoral News – Qual a importância da radio na naquela época?

Mario Mikosz – Nósda rádio Difusora de Paranaguá fazíamos todos os tipos de anúncios. Desde os nascimentos, aniversários, casamentos, movimento do Porto, movimento da Prefeitura, da Câmara Municipal e dos clubes sociais. Tudo girava em torno da rádio,  e nós recebíamos muitas visitas de autoridades estaduais. Imagine 60 anos atrás, no Paraná, cidades como  Londrina estavam começando e Paranaguá estava no auge da exportação de café. Existia uma comunicação direta com o ouvinte. As pessoas ligavam o rádio em casa para saber o que estava acontecendo, pois não tinha televisão.

Folha do Litoral News – Quais as principais diferenças na comunicação ao longo de meio século?

Mário Mikosz – A diferença de 50 anos atrás para hoje é  gritante, pois atualmente é tudo na base da internet, gravadores e computadores. Nosso primeiro avanço foi o gravador de rolo,  depois chegaram outras novidades e hoje temos aí uma facilidade de gravação. Mas a programação era feita com muito carinho que a gente substitui a falta da tecnologia que tem hoje sobrando do que era antigamente. Haja vista que grandes profissionais passaram por nós, pela rádio difusora de Paranaguá, como o Jamur Júnior, e ainda Rui Fernandes de Oliveira que hoje é um desembargador em Curitiba. Da dificuldade daquele tempo veio a facilidade de hoje. As mudanças começaram a surgir quando começou a era da televisão, esta era uma das preocupações do padre Jackson aqui em Paranaguá. Lembro que comentei com meu irmão Ludovico Mikosz que poderia ficar mais difícil de fazer rádio. Ele com toda sua visão e experiência, pois  era presidente da Associação das Emissoras de Rádios do Paraná. Ele disse que não, que nos primeiros 20 dias nós podíamos perecer, mas depois as pessoas vão assistir  televisão em certos horários e em outros horários ouvir rádio e que nós tínhamos que fazer uma programação boa para o ouvinte. Ele estava certo. O que acontece que hoje é que as programações de rádio não tem a mesma qualidade que tinha antigamente, esta é a grande diferença.

Folha do Litoral News – Na atualidade a comunicação convive com as ‘fake news’. Qual a solução para elas?

Mário Mikosz –  A solução para essas notícias falsas é verificar a fonte. A fake News é o efeito negativo da era digital e isso prejudica a sociedade como um todo. Mas isso não é de hoje. No tempo da Difusora tínhamos um grande cuidado antes de noticiar para evitar um escândalo, como ocorre hoje com a fake news.  Você só consegue credibilidade com anos de trabalho honesto. Eu ainda tenho ainda ouvintes do tempo do rádio Difusora quando apresentava o jornal da manhã, são profissionais de respeito na cidade que me perguntam quando vai voltar aquele horário de jornal das 7h quando a família se reunia em volta do rádio para saber as primeiras notícias do dia. Isso é credibilidade.

Folha do Litoral News – Em sua opinião como os comunicadores precisam trabalhar para manter a valorização na profissão?

Mário Mikosz – Tanto eu como o padre Armando e Ludovico nós criamos profissionais competentes. Nós tivemos sempre a preocupação em pegar  jovens de boas famílias de Paranaguá que gostassem de fazer rádio. Assim aconteceu com Antonio Pioli, Celso Chichorro de Oliveira, José Lúcio e outros que estão trabalhando e formados conosco como o Larry Cesar, Mauro Júnior, enfim vários que estão trabalhando em outras emissoras.  Tem gente que tem saudade do Vidal Scomação que ficou famoso pela exclamação ‘olha a hora, olha a hora’ é porque ele fazia o horário antes das 7h era o despertador. São casos que ninguém esquece.  A difusora formou uma grande leva de comunicadores gabaritados. A preocupação era muito grande antes de ir para o ar. O locutor ficava três horas sentado frente à maquina de escrever preparando tudo para trabalhar 4 horas no estúdio. Era uma programação feita manualmente com carinho e isso contribuiu para uma geração conceituada.   As rádios de hoje tem condições de fazer isso e com mais vantagens por causa da tecnologia, mas tem que ser feito com carinho,  o lado humano faz toda a diferença.