Há uma espécie curiosa de cidadão que vive em permanente estado de luto. Não por alguma tragédia específica, mas pelo simples fato de existir. Para ele, o mundo é um erro de cálculo. Nada funciona, nada presta, nada merece aprovação. O café está frio, o governo é incompetente, os vizinhos são insuportáveis, o destino é injusto e, naturalmente, a humanidade inteira parece conspirar pessoalmente contra sua tranquilidade. Uma vida dedicada ao esporte nacional da queixa.
Esses personagens são facilmente identificáveis: qualquer conversa, por mais banal que seja, acaba inevitavelmente transformada em sessão pública de lamúrias. Você menciona o clima, e eles respondem que o tempo já não é como antigamente. Fala de trabalho, e ouve que o sistema está corrompido. Menciona oportunidades, e eles explicam, com notável convicção, por que nenhuma delas jamais funcionará.
São especialistas em diagnosticar problemas. O curioso é que jamais os vemos prescrever soluções, muito menos aplicá-las.
A verdade é que a indignação, quando não exige esforço, torna-se um confortável estilo de vida. Reclamar dá menos trabalho do que agir. Criticar exige menos coragem do que mudar. E assumir o papel de vítima universal tem uma vantagem irresistível: absolve qualquer responsabilidade pessoal. Se tudo está contra mim, não há por que mover um dedo.
Assim nasce o que poderíamos chamar de o mártir da própria inércia. Aquele que espera, resignado, que alguma solução desça dos céus como um telegrama divino corrigindo os equívocos da existência.
O problema é que milagres, apesar da fama, raramente se ocupam de resolver preguiça moral.
Toda mudança digna desse nome começa num território menos espetacular: dentro de cada indivíduo. É um processo silencioso, quase doméstico. Exige vontade, disciplina, coragem e uma certa dose de lucidez. Virtudes discretas que não costumam frequentar assembleias de reclamadores profissionais.
Mas há também um elemento sem o qual nenhuma travessia se sustenta: fé. Não necessariamente aquela que se proclama em discursos solenes, mas a fé simples e obstinada de quem acredita que é possível levantar-se mais uma vez, mesmo depois de tropeçar.
Naturalmente, o caminho não será confortável. Obstáculos aparecerão com a pontualidade de velhos conhecidos. Haverá momentos de cansaço, de dúvida e até de desânimo. A tentação de desistir sempre visita quem decide caminhar.
Mas curiosamente, quase nunca as dificuldades são maiores do que a capacidade humana de enfrentá-las.
Um poeta resumiu isso com admirável economia de palavras: “Quando a noite vai alta, é sinal que pouco falta para a alvorada surgir. ”
Talvez o verdadeiro problema não seja a escuridão da noite, mas a preferência de alguns por permanecer deitados reclamando dela.
Por isso, antes de cobrar providências do universo, essa instituição que raramente responde a cartas indignadas, convém fazer algo mais simples e infinitamente mais eficaz: começar pelo próprio dever.
Porque o mundo, apesar de todos os seus defeitos, tem um curioso hábito de melhorar um pouco quando alguém decide, finalmente, fazer a sua parte.
___________________________
Grande Oriente do Paraná
Sereníssimo Grão Mestre – Vladimir Pires Martins
G. Secretaria de Comunicação e Imprensa – Luís Fernando da Silva Dias




