De repente, “Direitos Humanos” virou a nova grife da temporada. Todo mundo quer usar, exibir, desfilar. Políticos, artistas, influenciadores (profissão que ninguém entende, mas todos invejam) descobriram a fórmula mágica: pronunciar “Direitos Humanos” equivale a esfregar a lâmpada de Aladim. Aparecem instantaneamente câmeras, microfones e aquele brilho nos olhos de quem se sente moralmente superior ao restante da humanidade.
Não que defender direitos humanos não seja importante. É importantíssimo. O problema é que virou marketing. Ontem era bolsa de grife, hoje é discurso humanitário. Mais barato e rende mais dividendos eleitorais.
Todo dia, em algum canto do planeta, acontece algo sobre o tema: convenções internacionais, manifestações com cartazes criativos, congressos com coffee break e crachá. Criamos a Declaração Universal, a Corte Interamericana, comissões, ONGs, fundações, institutos. Uma verdadeira indústria. Faltou apenas lançar ações na bolsa: “Direitos Humanos S.A”. Lucro garantido, responsabilidade zero.
Mas nesse vendaval de nobres intenções (ou nem tão nobres), algo crucial está sendo varrido para debaixo do tapete persa da hipocrisia: estamos dissociando o indissociável. Direitos e deveres. É como querer só respirar oxigênio e mandar o gás carbônico para outra pessoa processar. Não funciona. Mas tentamos.
Por que ninguém quer falar de deveres? Simples: deveres são antipáticos, chatos, desagradáveis. Deveres não dão ibope. Não ficam bem no Instagram. Faça um post sobre seus deveres como cidadão e conte os corações. Agora exija seus direitos. O segundo, seguramente, vai bombar. Aposto minha coleção de dicionários.
Direitos são sempre dos outros para conosco. Deveres são sempre nossos para com os outros. Infinitamente menos atraente. É a diferença entre receber e dar um presente. Adoramos o primeiro; o segundo depende da conta bancária.
Talvez. Apenas talvez, seja hora de criarmos a Declaração Universal dos Deveres Humanos. A Corte Interamericana dos Deveres. Congressos sobre nossas obrigações. Imagino o entusiasmo: “Venha participar do seminário sobre suas responsabilidades!” As inscrições certamente não esgotariam em minutos.
A verdade inconveniente (e verdades costumam ser inconvenientes) é que direitos sem deveres são como gangorra com criança só: não funciona. Fica todo mundo parado, reclamando, esperando que alguém suba do outro lado.
Enquanto isso, seguimos criando declarações, tribunais, comissões. Tudo bonito, correto, fotogênico. Só esquecemos um detalhe: numa sociedade onde todos exigem direitos e ninguém cumpre deveres, o que temos não é civilização. É apenas uma multidão gritando ao mesmo tempo, cada um querendo ser ouvido, ninguém querendo escutar.
A verdadeira medida de uma sociedade não está apenas nos direitos que garante, mas nos deveres que seus cidadãos assumem. Mas isso não cabe num “post de internet”. E o que não cabe num “post de internet”, nos dias de hoje, simplesmente não existe.
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Grande Oriente do Paraná
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G. Secretaria de Comunicação e Imprensa – Luís Fernando da Silva Dias




