Maquiavel tinha essa mania de transformar a política numa espécie de zoológico moral. Dizia o florentino que o príncipe precisava ser leão, para aterrorizar os lobos, e raposa, para conhecer as armadilhas. Como se a virtude fosse uma questão de vestuário, algo que se veste conforme a ocasião, como quem troca de gravata antes de um jantar importante.
A frase me persegue há anos. Sempre que vejo um político subindo ao palanque com sua voz tonitruante, lembrando vagamente um felino engaiolado, penso: eis o leão. E quando o mesmo sujeito, horas depois, aparece nos bastidores negociando alianças impossíveis, sorrateiro e calculista, reconheço a raposa. O problema é que, no Brasil, acabamos criando uma terceira categoria, um híbrido monstruoso que não assusta ninguém e cai em todas as armadilhas.
Maquiavel tinha razão num ponto: o poder não se compadece de inocentes. Quem entra no jogo político acreditando que a verdade e a bondade são suficientes está condenado ao papel de figurante. Acaba devorado pelos lobos ou preso nas armadilhas que ele mesmo ajudou a construir, com sua ingenuidade patética. A história está cheia de homens de bem que terminaram mal, não porque fossem ruins, mas porque não souberam rugir na hora certa ou farejar o perigo a tempo.
Mas há algo de profundamente triste nessa necessidade de animalização. Ser leão significa, no fundo, aceitar que a força bruta ainda comanda o mundo. Que o rugido importa mais que o argumento. Que aterrorizar é um método legítimo de governança. E ser raposa? Bem, isso implica reconhecer que a política é, antes de tudo, um campo minado onde cada passo pode ser o último. Onde confiar é sinônimo de estupidez e a mentira uma ferramenta de trabalho.
Vejo jovens entrando na política com os olhos brilhando de idealismo, acreditando que vão mudar o mundo. Alguns até conseguem manter a decência por um tempo. Mas cedo ou tarde, diante do primeiro lobo que aparece, precisam escolher: viram leão ou viram refeição. E quando caem na primeira armadilha, ou se tornam raposas ou desaparecem do mapa.
O curioso é que Maquiavel, esse conselheiro de príncipes que todo mundo cita e poucos leram direito, não estava pregando o cinismo pelo cinismo. Estava, à sua maneira torta, tentando ser realista. Olhava para Florença, para a Itália fragmentada do século XVI, e constatava: aqui, quem não souber ser besta quando necessário, perece. Era quase um manual de sobrevivência, não um tratado de filosofia moral.
Mas, e nós, que vivemos quinhentos anos depois, continuamos repetindo a mesma lição? Significa que não aprendemos nada? Ou significa que a natureza humana, essa coisa obstinada e imutável, continua precisando das mesmas velhas estratégias?
Prefiro pensar que há uma terceira via, estreita como fio de navalha, onde se pode transitar sem perder inteiramente a alma. Onde ser leão não significa ser tirano, e ser raposa não significa ser canalha. Mas confesso que, na prática, essa terceira via parece mais uma ilusão de cronista velho, dessas que a gente cultiva para não morrer de desgosto antes da hora.
No fim, Maquiavel nos deixou uma lição amarga: a política é o reino dos bichos. E o ser humano, quando entra nela, precisa escolher qual bicho quer ser.
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Grande Oriente do Paraná
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