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Semeando Esperança

“Vale ser um realista esperançoso”

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Em uma de suas muitas entrevistas, Ariano Suassuna – escritor, dramaturgo, advogado e professor, paraibano orgulhoso de sua origem nordestina e, principalmente, brasileira – afirmou que “os otimistas são ingênuos, os pessimistas são amargos, mas vale ser um realista esperançoso”.   Sua reflexão é um convite a olhar a realidade com esperança, sem abandonar as lutas, ainda que elas pareçam invencíveis. Esse modo de viver requer, certamente, uma grande dose de humor – aliás muito próprio de Ariano – e também de paciência perseverante e de firme persistência.

O Evangelho deste 16º Domingo do Tempo Comum – Mateus 13,24-43 – propõe parábolas que ajudam a seguir esta via do realismo esperançoso. Para falar do Reino dos Céus, Jesus tomou três imagens: a do homem que semeou boa semente no seu campo, enquanto seu inimigo, durante a noite, semeou erva daninha no meio do trigo (“parábola do joio e do trigo”); a da semente de mostarda e a do punhado de fermento que a mulher mistura à farinha, até que tudo fique fermentado. Dessas parábolas, brota um olhar cheio de corajosa esperança.

Na primeira parábola, os empregados perguntam ao homem que semeou o trigo: “Queres que vamos arrancar o joio?” (Mt 13,28). Pareceria normal que a resposta fosse: “Sim, arranquem o mato do meio do meu trigo”. É o que pode ser percebido, por exemplo, na crescente mentalidadede intolerância socialque propõe erradicar o mal para que somente o bem possa crescer. As pessoas, porém, não se dão conta de que isso revela o que existe em seu próprio coração: eliminar o inimigo, considerando-se a si mesmas as pessoa mais honestas, retas e santas, considerando a outra pessoa alguém que não presta e cuja vida não vale nada. Mas, não! Para Jesus, no campo da vida, onde Deus coloca a boa semente do seu Reino, crescem misturados o bem e o mal, a graça e o pecado, o amor e as maquinações contra o próximo, o riso e a dor. Para ele, o caminho é bem diferente: o tempo presente nos é dado para, sobretudo, semear o bem, com entusiasmo, coragem e determinação. É a estação propícia para espalhar pelo mundo grãos de justiça, solidariedade e paz, às vezes tão pequenos como os de mostarda: “embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que todas as outras plantas” (Mt 13,32). É o momento para misturar, com empenho cotidiano, um pouco de fermento à massa para que ela possa levedar; ser fermento de transformação.É a ocasião privilegiada para fazer escolhas: “hoje eu estou colocando diante de você a vida e a felicidade, a morte e a desgraça (Dt 30,5). As escolhas trazem sempre consequências. Não é indiferente escolher o que gera vida ouescolher o que causa morte.

Haverá, porém, um dia em que tudo será colocado às claras. Na vida, podemos confundir o mal com o bem, mas chegará o dia da colheita, o dia em que as sementes de mostarda terão se tornado uma árvore e a massa terá crescido por causa do fermente que nela foi misturado. Então, será o fim! Naquele dia, Deus – e só ele – julgará, separando os bons dos maus: “o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,41-43).

Por enquanto, com sabedoria e discernimento, com responsabilidade e liberdade aderir ao bem e rejeitar o mal, vamos lançar boas sementes e pôr a mão na massa; nada de cruzar os braços. Enquanto vivemos, a ingenuidade dos otimistas e a amargura dos pessimistas só atrapalham. O que vale mesmo é “ser um realista esperançoso”.