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Centro de Letras

O Pica-Pau

Segundo Nascimento Júnior, em artigo encontrado nos jornais “O Dia” (1932) e o “A Divulgação” (1952): no ano de 1800

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Por Alexandre Camargo de Sant’Ana

Segundo Nascimento Júnior, em artigo encontrado nos jornais “O Dia” (1932) e o “A Divulgação” (1952): no ano de 1800 – quando Paranaguá “não passava de um burgo com duas centenas e meia de casas” desertas de dia e escuras à noite – dois escravos, Adão e Marçal, assassinaram seu senhor, o capitão Antônio Elias Ferreira. Ambos foram enforcados em frente à cadeia na Rua XV, na praça onde atualmente existe o busto do professor Cleto, atrás do Mercado. Não contente, a mãe de Antônio, Dona Maria da Conceição Ferreira, pagou ao carrasco Joaquim – apelido “Picapau” – para decapitar os dois escravos e colocar as cabeças em salmoura. Seriam transportadas a Morretes e expostas no caminho do Marumbi (local do crime) para servirem de exemplo aos outros cativos.

“Picapau” era um viciado, “certamente criminoso”, que aparecera na vila de Paranaguá havia dois anos, “vindo do sul, fortes suspeitas existindo de ser desertor da tropa”. Segundo uma conversa “em roda de taverna”, recebeu este apelido porque ao servir nas “fronteiras do Sul” escondia dinheiro nos troncos das árvores. Para cortar as cabeças dos dois escravos e colocá-las na salmoura, recebeu 50 mil réis (50$000) – “quantia então considerável”. Todavia era um alcóolatra e possivelmente sua consciência pesou após o serviço, principalmente por conta da repulsa social, “bastando [ele] aparecer (…) para que os ajuntamentos se dissolvessem”. Nem mesmo os taverneiros o tratavam bem. Entre aqueles que desprezavam “Picapau”, havia um “que o encarava com verdadeiro ódio”: um “africano” inconformado com “o suplício dos seus dois irmãos de raça” e desejando vingança. Certa noite, “Picapau” foi assassinado e seu corpo encontrado ao amanhecer com míseros 30 réis no bolso. Bastou para receber o perdão popular e uma cruz ser erguida e venerada no local.