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Ciência e Saúde

Redução da vacinação infantil gera alerta para retorno de doenças erradicadas no Brasil

Butantan ressalta queda na imunização de crianças contra poliomielite e sarampo

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Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

As notícias falsas, que agem ignorando a ciência e contra a vacinação infantil da Covid-19, não são novidade e existem também com relação a outras doenças. É o que informa o Instituto Butantan, que na segunda-feira, 7, alertou que nos últimos 10 anos o Brasil está registrando queda no índice de imunização de crianças contra diversas enfermidades, inclusive algumas delas erradicadas no País graças à vacina, como é o caso da poliomielite e do sarampo. O número é considerado como alarmante, visto que, segundo a entidade científica, o índice de vacinação ideal é acima de 90%, entretanto, vem despencando nos últimos anos, sendo que em 2021 chegou a 60,7%, de acordo com o DataSUS do Ministério da Saúde (MS).

O Butantan reforça que a ciência indica que é a vacinação a forma mais efetiva para eliminação de uma doença viral, sendo que a queda da imunização pode gerar consequências com relação à pandemia, assim como outras doenças. “A curto prazo, no caso de uma pandemia como a que vivemos, a redução da vacinação torna impossível controlar a disseminação do vírus e, portanto, eliminar ou diminuir os índices de pessoas doentes. A longo prazo, pode ocorrer a reemergência de um vírus, além de impedir o controle da doença”, afirma a diretora do Laboratório de Biotecnologia Viral do Instituto Butantan, Soraia Attie Calil Jorge.

Tríplice viral e gotinha contra poliomielite

A vacina tríplice viral, aplicada em crianças brasileiras protegendo-as contra o sarampo, rubéola e caxumba, é um dos principais imunizantes do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Apesar de sua importância, desde 2017 as coberturas vacinais desta vacina são consideradas insuficientes, com indicador contabilizando 86,2% naquele ano. Em 2021 a cobertura caiu ainda mais para 71,4%. “Esse decréscimo na vacinação vem contribuindo para o surgimento de novos surtos de sarampo, uma doença altamente contagiosa, transmitida por gotículas respiratórias, que provoca sintomas como tosse, coriza, olhos inflamados, dor de garganta, febre e irritação na pele com manchas vermelhas. Em casos mais graves, pode causar pneumonia e inflamação no cérebro”, alerta o Butantan.

“Já a procura pela vacina contra poliomielite, o imunizante de gotinhas, caiu de 96,5% em 2012 para 67,6% no último ano. A doença foi considerada erradicada no Brasil em 1989, quando ocorreu o último caso, mas a queda da imunização coloca em risco esse avanço. Os sintomas da poliomielite incluem febre, dor de cabeça, de garganta e no corpo, vômitos, diarreia, constipação (prisão de ventre), espasmos e rigidez na nuca. O vírus pode atingir o sistema nervoso e causar paralisia permanente nas pernas ou braços”, informa a assessoria. 

Segundo a entidade científica, há outra vacina a ser aplicada no público infantil que é a contra o rotavírus. A doença causa infecção no sistema digestivo, sendo a principal causa de diarreia grave e desidratação em crianças de três a 15 meses, gerando mortalidade infantil no País. “O vírus causa aproximadamente 215 mil mortes por ano no mundo em meninos e meninas com menos de cinco anos, principalmente em países em desenvolvimento. Os índices de vacinação contra o rotavírus no Brasil reduziram de 86,3% em 2012 para 68,3% em 2021”, destaca o Butantan.

Movimento antivacina e fake news

A pesquisadora do Butantan afirma que o surgimento do movimento antivacina, existente até hoje, se deu no século XIX. Na época, pessoas se posicionaram contra a vacinação com utilização de fraudes científicas, ou seja, informações falsas, bem como argumentos teológicos. “Na época, surgiram ligas antivacinação, especialmente nos Estados Unidos e na Inglaterra, que brigavam pela eliminação da vacina contra a varíola”, explica o Butantan.

Entre os diversos casos, o que teve maior repercussão no mundo foi de um artigo científico publicado na revista The Lancet em 1998, onde o autor Andrew Wakefield sugeria uma relação entre o autismo e a vacina tríplice viral. “Tempos depois esse trabalho foi contestado, pois se descobriu que o médico possuía contato com advogados que queriam processar fabricantes de vacinas e que ele também havia alterado dados dos pacientes”, afirma Soraia Jorge.

O Instituto Butantan reforça que o contexto de notícias falsas cada vez mais presente no mundo atual, fez com que a desinformação e o desdém à ciência fossem itens cada vez mais disseminados. A entidade afirma que isso somente reforça a importância de que haja investimento em educação e que haja incentivo à sociedade para se interessar pela ciência. “Para que as pessoas possam ter a capacidade de discernir informações verdadeiras e falsas, é preciso ter educação de base, especialmente aplicada às áreas de conhecimento científico. Políticas públicas que aproximem a população em geral de Universidades e Centros de Pesquisa, como o Instituto Butantan, certamente colaborarão para a melhoria deste cenário”, finaliza a cientista do Butantan.

Com informações do Instituto Butantan