Sob a Ótica Maçônica

Tolerância, Erro e Perdão – Fronteiras Éticas em um Mundo em Crise

Por Fonseca.R

grande oriente parana

Em tempos marcados por radicalismos e indiferenças crescentes, a convivência humana exige discernimento sobre como lidamos com o erro e suas consequências. Não se trata de tolerar o intolerável, tampouco de fechar os olhos diante da injustiça, da crueldade ou da violação da dignidade humana. Como advertia Hannah Arendt ao refletir sobre os julgamentos de nazistas no pós-guerra, o “mal banalizado” se instala justamente quando deixamos de reagir. A tolerância, neste contexto, precisa ser compreendida como aliada da vigilância ética, jamais como licença para a permissividade ou para o silêncio cúmplice.

Errar é, por definição, afastar-se de um padrão, norma ou resultado desejado. O erro pode se manifestar em ações, raciocínios ou julgamentos, com consequências que variam de triviais a graves. Contudo, mais relevante do que o erro em si é a forma como o enfrentamos. Três atitudes fundamentais emergem nesse processo: a tolerância, a conivência e a omissão — cada uma delas com implicações éticas próprias e limites que precisam ser claramente estabelecidos.

A tolerância, em sua acepção mais nobre, é uma virtude que permite reconhecer a complexidade do agir humano. Erros isolados, especialmente em contextos de aprendizagem ou em situações complexas, devem ser compreendidos e aceitos como parte do processo de crescimento. Todavia, a repetição sistemática de falhas, especialmente quando causam danos significativos ou decorrem de negligência, exige resposta firme. A tolerância, portanto, tem um limite: ela deve servir ao aprendizado, mas não à perpetuação do erro.

Muito distinta é a conivência. Conivente é aquele que, tendo ciência do erro, escolhe calar, justificar ou mesmo participar dele, ainda que indiretamente. Trata-se de uma aceitação tácita ou explícita que mina a integridade ética e compromete os princípios coletivos. Não há espaço moralmente justificável para a conivência, especialmente quando o erro compromete a vida, a dignidade ou os direitos de terceiros.

A omissão, por sua vez, é a inércia deliberada diante do erro conhecido. Ao contrário da conivência, que pode envolver alguma forma de ação, ainda que velada, a omissão é a decisão de não agir. Seus limites aceitáveis são estreitos e, em regra, só se justificam quando intervir implicaria em risco pessoal desproporcional. Fora desses casos, omitir-se é permitir que o erro continue a produzir danos, sobretudo quando há um dever ético ou profissional de agir.

Nesse cenário, o perdão aparece como uma dimensão distinta. Ele não se refere à aceitação do erro, mas à maneira como a pessoa afetada lida internamente com a ofensa. Perdoar é um processo emocional e pessoal de libertar-se do ressentimento, raiva ou desejo de vingança. Não implica em justificar o ato, tampouco anula a necessidade de responsabilização. É possível perdoar alguém e, ao mesmo tempo, reconhecer que esse alguém deve enfrentar as consequências de seus atos.

A relação entre perdão e tolerância é sutil: pode-se tolerar um erro sem perdoar quem o cometeu, assim como é possível perdoar, mas não mais tolerar comportamentos semelhantes. Com a conivência, o perdão é diametralmente oposto: perdoar não é compactuar, mas sim elaborar uma resposta emocional saudável sem deixar de buscar justiça. Quanto à omissão, o perdão pode servir como ferramenta de reconciliação consigo mesmo diante de uma falha de ação, mas jamais deve ser usado para suavizar ou ignorar a gravidade da inação.

Importante lembrar que o perdão é um processo, não um evento súbito. Ele exige tempo, reflexão e, muitas vezes, um genuíno arrependimento por parte de quem errou. Ninguém está obrigado a perdoar, sobretudo quando se trata de transgressões profundas ou reiteradas, desprovidas de qualquer gesto de reparação.

Assim, reconhecer os limites entre tolerar, ser conivente, omitir-se ou perdoar é um exercício constante de responsabilidade ética. Cada uma dessas atitudes carrega consigo implicações morais que afetam não apenas a vida individual, mas a saúde coletiva da sociedade. A construção de uma cultura mais justa, humana e consciente depende da clareza com que distinguimos essas posturas e da coragem com que escolhemos reagir ao erro — com justiça, sim, mas também com a necessária humanidade.

Sereníssimo Grão-Mestre Vladimir Pires Martins

Grande Secretaria de Comunicação e Imprensa
Luís Fernando da Silva Dias

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