Houve um tempo em que pensar era considerado uma virtude. Hoje, parece ser uma atividade subversiva. Algo entre um vício inconfessável e um atentado contra a ordem pública. O mundo contemporâneo conseguiu realizar um feito extraordinário: transformou o pensamento em heresia e a obediência em virtude cívica.
Pensar, afinal, é perigoso. Quem pensa pergunta. Quem pergunta incomoda. E quem incomoda costuma perturbar o confortável arranjo daqueles que preferem um rebanho disciplinado a uma sociedade de indivíduos. Não é por acaso que, discretamente, fomos convidados a abdicar desse hábito incômodo. E, como bons anfitriões da própria decadência, aceitamos o convite com notável entusiasmo.
A humanidade, que outrora se orgulhava de sua capacidade de raciocinar, agora parece competir pela medalha de ouro na arte da repetição. Repetimos slogans, opiniões prontas, indignações fabricadas e convicções de terceira mão. Tudo embalado com a elegância de quem acredita estar exercendo pensamento crítico quando, na verdade, apenas repete o refrão da semana.
Enquanto isso, o grande espetáculo segue em cartaz. As novelas oferecem modelos de vida, os noticiários fornecem interpretações prontas do mundo, e a infinita maquinaria da comunicação moderna distribui verdades embaladas em celofane ideológico. O público, obediente, consome tudo com a serenidade de quem acredita estar sendo informado, quando na realidade está sendo cuidadosamente conduzido.
A metáfora do gado nunca foi tão injustamente subestimada. O gado, ao menos, não finge que escolheu o caminho para o matadouro. Nós, ao contrário, caminhamos com admirável convicção rumo ao abate intelectual, convencidos de que estamos exercendo nossa liberdade. Há algo de profundamente elegante nesse suicídio coletivo da inteligência: ele ocorre sem protestos e, melhor ainda, com aplausos.
Assim, pouco a pouco, transformamo-nos em criaturas dóceis, movidas por cordas invisíveis. Marionetes de uma coreografia social onde pensar demais é considerado mau gosto. Afinal, a dúvida sempre foi o pior inimigo das certezas convenientes.
Mas a tragédia ainda não está totalmente escrita. A história humana possui uma curiosa tendência a ser interrompida por surtos inesperados de lucidez. Ainda existe, escondida em algum lugar sob camadas de conformismo, aquela antiga faculdade chamada pensamento.
Recuperá-la exige um esforço quase revolucionário: questionar, refletir, duvidar. Atividades que hoje parecem extravagâncias intelectuais. Exige também coragem, virtude que raramente floresce em pastagens muito bem cercadas.
Reconstruir a autonomia da mente não será fácil. Rebanhos não costumam virar sociedades de um dia para o outro. Mas é possível. E, mais do que possível, tornou-se urgente.
Porque há algo profundamente indigno em uma espécie que conquistou o universo da razão e decidiu, voluntariamente, abdicar dele.
E a verdade é simples, ainda que inconveniente: a tarefa de recuperar o pensamento não é para amanhã. É para ontem.
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Grande Oriente do Paraná
Sereníssimo Grão Mestre – Vladimir Pires Martins
G. Secretaria de Comunicação e Imprensa – Luís Fernando da Silva Dias




