Ele está em toda parte. Na fila do banco, no escritório, na reunião de condomínio, na mesa ao lado do bar, no grupo de WhatsApp que nunca responde — mas lê tudo, pode apostar. Ele é o Omisso, essa criatura sorrateira que aprendeu a transformar a inação numa espécie de filosofia de vida, a covardia num estilo pessoal, e a conivência num verniz respeitável de prudência.
Não o subestime. O Omisso não é um ser passivo por acidente. É por vocação. Há nele uma engenharia refinada do esquecimento conveniente, uma arquitetura perfeita do “não me envolvo”. Enquanto o mundo pega fogo ao redor, ele aperfeiçoa a arte de cruzar os braços com elegância. Observa tudo com aqueles olhos miúdos e atentos, processa, classifica, guarda. Mas fica quieto. Quieto e imóvel, como um lagarto ao sol — exceto que o lagarto, ao menos, caça.
O silêncio do Omisso, convém esclarecer, não é o silêncio dos sábios. É o silêncio dos convenientes. Porque ele fala, sim — só não fala na hora certa, no lugar certo, para as pessoas certas. Fala pelos cantos. Sussurra nos corredores. Alimenta a fofoca com uma colher de chá e um sorriso de inocente. É o grande fornecedor do burburinho sem rosto, o anônimo abastecedor de maldades que circulam sem assinatura. Tem a língua ativa e a espinha mole. Uma combinação que a natureza, em seus dias de mau humor, teima em repetir.
Quando algo dá errado — e algo sempre dá errado —, o Omisso tem seu catecismo pronto: não é comigo, não tenho nada com isso, não é da minha alçada. Uma ladainha ensaiada, entoada com a convicção de quem acredita, de fato, que o mundo é um problema alheio. Jamais uma ação. Jamais um gesto. Jamais o mínimo esforço para corrigir o erro, atenuar o estrago ou simplesmente dizer em voz alta o que todo mundo já sabe em voz baixa.
E é justamente aí que reside o seu pecado mais grave: o Omisso não é inocente. Quem se omite escolhe um lado — invariavelmente, o lado errado. A omissão não é neutralidade; é cumplicidade com roupa de neutro. É o portão aberto para o ladrão, a testemunha que olha para o outro lado, o vizinho que ouviu os gritos e achou melhor não se meter. A história está cheia de omissos ilustres, e nenhum deles saiu bem na foto.
O que assusta não é a existência do Omisso — ele é tão antigo quanto a covardia, e a covardia é tão antiga quanto o homem. O que assusta é a sua multiplicação, a sua normalização, a crescente sensação de que se omitir é uma postura legítima, quase adulta, quase inteligente. Que se envolver é ingenuidade. Que tomar partido é falta de maturidade. Que agir é perda de tempo.
Não é. Omissão é covardia com boa assessoria de imprensa.
Num mundo que cada vez mais recompensa o silêncio calculado e pune a palavra franca, o Omisso prospera. Cresce. Reproduz-se. Ocupa espaços que deveriam pertencer a quem tem voz e a usa — para o bem, para a verdade, para o incômodo necessário que toda sociedade viva precisa suportar.
Fique atento. Ele está perto de você. Talvez do seu lado. Talvez, em alguns momentos, dentro de você.
E essa é a parte mais difícil de encarar.
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Grande Oriente do Paraná
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G. Secretaria de Comunicação e Imprensa – Luís Fernando da Silva Dias




