Por Fonseca.R
Todo ano, pontualmente em 21 de abril, o Brasil para. Revive-se a Inconfidência Mineira com a fidelidade de um ritual: os nomes dos conjurados, o peso da traição, o julgamento arrastado, a forca erguida na praça. Contamos o fato com riqueza de detalhes, e fazemos bem em contá-lo. Há, porém, algo que permanece à sombra dessa narrativa, algo mais difícil de ver a olho nu, mais difícil de medir e, talvez por isso, mais difícil de honrar: o ato de Tiradentes.
Fato e ato não são a mesma coisa. O fato é o acontecimento, datado, localizado e documentado. O ato é outra dimensão: é a escolha feita no silêncio da consciência, no momento em que tudo ainda poderia ser diferente. E no caso de Joaquim José da Silva Xavier, quando esse momento chegou, ele não vacilou.
Tiradentes tinha saídas. Não faltavam ao alferes caminhos de fuga ou de sobrevivência. Poderia ter negado sua participação na conjura. Poderia ter alegado que foi usado, manipulado por homens mais poderosos e instruídos. Poderia, como fizeram outros, negociar uma delação premiada: oferecer nomes em troca da própria vida. A lógica da autopreservação, que governa a maioria dos seres humanos diante do patíbulo, estaria mais do que justificada. E ninguém, honestamente, poderia condená-lo por isso.
Mas não foi isso que ele fez. Diante de seus algozes, Tiradentes assumiu. Assumiu a liderança do movimento, assumiu a responsabilidade pelos companheiros, assumiu o peso de um ideal que sabia maior do que sua própria vida. Não delatou. Não negou. Quando pressionado, resistiu. Quando coagido, permaneceu firme. Há nisso uma estatura moral que ultrapassa qualquer narrativa histórica. Porque não se trata de heroísmo abstrato, mas de uma escolha concreta, feita sob tortura, sob ameaça, sob o peso insuportável da sentença já escrita.
O que movia Tiradentes não era a certeza do êxito. A conjura havia fracassado antes mesmo de começar. Era a crença. A crença no ideal republicano, na possibilidade de um Brasil livre, soberano, desatado dos grilhões coloniais. Homens que agem movidos pela crença, e não pelo cálculo da vitória, pertencem a uma categoria rara. São os que mudam a história não porque venceram, mas porque recusaram perder a dignidade mesmo quando perderam tudo o mais.
E havia, também, a lealdade. Em tempos em que a delação era moeda de troca e a traição, estratégia de sobrevivência, Tiradentes fez o inverso. Protegeu seus companheiros com o silêncio. Escolheu carregar sozinho o que poderia ter distribuído entre muitos. Essa fidelidade, não à nação, que ainda nem existia, mas aos homens com quem havia sonhado um país é talvez o traço mais humano e mais nobre de toda a história.
Difícil avaliar quem foi maior: o fato ou o ato. Talvez sejam, ambos, iguais em importância. O fato nos diz o que aconteceu. O ato nos diz quem era o homem. E é no ato, nessa escolha silenciosa, inquebrantável, feita às vésperas da morte, que reside o verdadeiro legado de Tiradentes.
Enquanto continuarmos a comemorar apenas o episódio, estaremos honrando a data. Quando aprendermos a comemorar também a escolha, estaremos honrando o homem.
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