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Semeando Esperança

O reinado da não-violência

Este domingo, o quinto antes do Natal, é o último do Ano Litúrgico, dedicado a celebrar Jesus Cristo, no mistério de sua realeza

Publicado

em

Bispo Dom Edmar Peron

Este domingo, o quinto antes do Natal, é o último do Ano Litúrgico, dedicado a celebrar Jesus Cristo, no mistério de sua realeza. Sim, nele aclamamos Jesus Cristo, nosso rei. Tal proclamação poderia criar algumas dificuldades na compreensão entre a vida eclesial e as realidades sociais. Por isso, a importância do Evangelho: Cristo estabelece o seu reinado a partir do trono da Cruz: Jo 18,33-37. Ele é rei no mistério de sua cruz, sepultura, ressurreição dentre os mortos e ascensão à glória de Deus Pai. É o paradoxo da realeza de Cristo!

O contexto da passagem evangélica é o da condenação de Jesus, depois de os chefes dos judeus o terem entregado a Pilatos, como “um malfeitor”. Jesus e Pilatos estão frente-a-frente. O confronto entre eles ajuda a compreender a qualidade do “Reino” anunciado por Jesus. Enquanto para Pilatos, reinar tem a ver com questões políticas e com exercício do poder, para Jesus, reinar é seguir os passos da verdade e acolher a revelação das coisas do alto. Assim, na lógica de Jesus, reina quem não usa de violência contra pessoas ou grupos: “Se o meu reino fosse deste mundo – isto é, segundo a mentalidade mundana –, os meus guardas lutariam.” Por ser uma realeza da não-violência, ela desmascara a nossa tendência de agir com maldade e usar de violência nas nossas relações interpessoais e sociais. É um reinado segundo a lógica das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus… Alegrai-vos e exultai” (Mt 5,9-12). Inclusive, na hora da prisão, Jesus corrigiu Pedro, dizendo: “Guarde a espada” (Jo 18,11). Depois, acrescentou: “Todos os que usam a espada, pela espada morrerão” (Mt 26,52). Sua realeza rejeita, pois, impor-se sobre os outros, rejeita agir de modo violento.

Há, portanto, uma luta interior e outra social a ser travada. Interiormente lutamos para deixar espaço em nossas vidas para que Cristo reine. Os meios que temos à disposição para empreender tal luta se resumem na escuta da Palavra de Jesus: “Todo aquele que é da verdade – ele mesmo é a Verdade (Jo 14,6) – escuta a minha voz”. A escuta requer nossa livre adesão e nossa responsabilidade. Não se realiza pelas vias da imposição, coerção, sedução ou manipulação das pessoas. É um caminho de liberdade e de libertação. Nas relações sociais, a luta é pra vencer atitudes como a de Pilatos: apesar de reconhecer a inocência de Jesus – “não encontro nele culpa alguma” (Jo 18,38) –, ele traiu a própria consciência e o condenou para não perder o poder, não se indispor contra o imperador e nem atrair a inimizade dos chefes dos judeus. Vemos nele uma das mais graves traições que uma pessoa humana possa fazer: trai-se a si mesmo. Trair a própria verdade e a própria consciência.

Para todos os batizados – e para todas as pessoas de boa vontade, como o grande líder indiano, Mahatma Gandhi (1869-1948) – o caminho para deixar Deus reinar na vida pessoal e na sociedade, é marcado pela não-violência e, consequentemente, pela promoção da paz, fruto da justiça.

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