Profª Lúcia Helena Freitas da Rocha
Somos, em grande parte, moldados pelas mãos que nos ajudam. O mundo se sustenta por aqueles pequenos gestos que quase passam despercebidos, mas que, ao seu modo, sustentam o que de mais valioso carregamos: o sentido de comunidade. As experiências de partilha e apoio mútuo criam raízes profundas, não somente em quem recebe, mas em quem se disponibiliza.
Sempre se fala sobre solidariedade, mas raramente se para para pensar no que, de fato, quer dizer essa palavra quando se transforma em gesto. Não é apenas simpatia pelo sofrimento do outro. É algo mais concreto, mais visceral.
Afinal, não basta saber que alguém precisa de ajuda — é preciso tomar iniciativas, envolver-se com compromisso e entrega. O próprio termo carrega um peso quase ancestral: vem do latim solidus, sólido, inteiro. Não é por acaso. Ser solidário é, quase sempre, sentir o peso do outro sobre os próprios ombros.
Diferenças existem e, às vezes, são tênues. Empatia é, antes de tudo, aquele exercício interno de tentar se colocar no lugar do outro. Solidariedade, não. Ela exige uma ponte — aquela ação efetiva, concreta, que distorce a rotina e modifica realidades. Elas podem coexistir e até se complementar.
Doar é um gesto antigo. Há registros de comunidades que sobreviveram a períodos críticos apenas pelo hábito de repartir. E, ainda que a imagem mais frequente seja a da doação material, os laços criados são sempre mais valiosos do que o objeto em si.
A doação, como ação coletiva, ganhou força em calamidades recentes: enchentes, queimadas, pandemias. É nessas horas que percebemos que a riqueza não está em acumular, mas em distribuir aquilo que, por algum motivo, tivemos em excesso.
Geralmente pensamos em solidariedade como algo espetacular, reservado aos grandes feitos. Mas a verdade é que, no cotidiano, são as pequenas gentilezas que criam uma cultura de apoio.
É na escola, na cultura, na convivência que se aprende, de verdade, a agir juntos.
Solidariedade também se ensina — e pode ser a lição mais duradoura.
No dizer do grande sociólogo Betinho :”A solidariedade não se agradece. Comemora-se.”





