História, Memória e Patrimônio

O Cheiro da Saudade

Em algum canto, o perfume do café ajuda a espantar o frio

ksovpy

Caro leitor, aceite um convite.

Venha comigo até 1950. Não precisamos de malas ou passagens. Para certas viagens, basta a memória.

É outubro. Ainda é noite em Curitiba, e o frio atravessa os casacos quando chegamos à Estação Ferroviária. Há passageiros sonolentos, malas pelo chão e despedidas apressadas. Em algum canto, o perfume do café ajuda a espantar o frio.

Pontualmente às seis da manhã, ouvia-se o apito. Longo. Forte. Inconfundível.

A Maria-Fumaça acordava — e parecia acordar Curitiba com ela.

A locomotiva partia soltando fumaça negra pela chaminé, como uma serpente de ferro ganhando vida. Seguíamos nos bancos de madeira da segunda classe. Pouco importava o conforto.

Estávamos voltando para casa.

Logo surgiam os “marreteiros”, percorrendo os vagões com tabuleiros presos por cintas de couro. Vendiam doces, cigarros e pequenas mercadorias.

A primeira parada era Pinhais. Depois, outro apito, e seguíamos rumo à Serra do Mar.

Em Banhado, o dia começava a nascer. Enquanto a locomotiva bebia água, os passageiros aproveitavam a parada para tomar café com o famoso bolinho de graxa. Era gente entrando, saindo e comprando. Um verdadeiro vuco-vuco.

Novo apito.

A Maria-Fumaça avançava pela serra, devorando lenha e lançando fagulhas pelas janelas. Havia fumaça nas roupas, fuligem no ar e o ritmo das rodas sobre os trilhos.

Então chegávamos a Morretes.

As plataformas ganhavam cores e perfumes: goiabas, frutas-do-conde, laranjas, rapadura, farinha e biju, tudo em cestas de vime. E mais café, agora acompanhado de bolinho de camarão.

Depois, novamente o trem, o apito e os trilhos.

Até chegarmos a Alexandra.

E ali alguma coisa acontecia.

Não precisávamos olhar pela janela ou consultar o relógio.

O cheiro avisava.

Estávamos chegando em casa.

Era cheiro de mato, terra, umidade e litoral. Um aroma impossível de explicar a quem nunca o sentiu. Entrava pelas narinas e alcançava algum lugar mais profundo.

Embriagava a alma.

Havia também o cheiro do trem: fumaça, madeira queimando, café, frutas, bancos de madeira e fuligem.

Talvez ninguém percebesse que aqueles aromas estavam sendo guardados. A juventude raramente sabe quando está fabricando saudades.

Apenas vive.

Quando chegávamos a Paranaguá, descíamos e a Maria-Fumaça ficava para trás.

Terminava a viagem.

Ou talvez não.

Porque algumas viagens continuam dentro da gente.

Décadas passam. Estações mudam. Trens desaparecem. Mas basta fechar os olhos para ouvir novamente o apito, sentir o frio de Curitiba, o café de Banhado, as frutas de Morretes e a fumaça pela janela.

E, ao chegar a Alexandra, aquele velho cheiro de mato invade novamente a alma.

É quando compreendemos que a saudade, às vezes, não chega pelos olhos.

Chega pelo cheiro.

O cheiro da fumaça. Da serra. Do trem. Da juventude que ficou para trás.

O cheiro de estar voltando para casa.

Talvez esse seja, afinal, o verdadeiro cheiro da saudade.

Memórias de ZM


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Hamilton Ferreira Sampaio Júnior

Hamilton Ferreira Sampaio Júnior é escritor e historiador, formado em Teologia e licenciado em História. Faz parte da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia, sendo também sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. Atua em projetos históricos de resgate de memória, livros comemorativos e biografias, além de projetos museológicos e pesquisas documentais para segunda cidadania. Seu mais recente trabalho foi o livro Echos da Antiga Paranaguá

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