História, Memória e Patrimônio

A Voz da Matrona

Em Paranaguá, essa voz tem nome: Córdula Rodrigues França

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A história costuma chegar até nós pela voz dos homens que bradaram em praças públicas. Raramente a ouvimos pelos sussurros que atravessaram as paredes das casas, pelas cartas escritas à luz baixa, pelas mulheres que observaram tudo e registraram o que viram. Em Paranaguá, essa voz tem nome: Córdula Rodrigues França.

Falar da emancipação político-administrativa do Estado do Paraná é falar de Paranaguá. E por quê? Porque os ideais de emancipação da 5ª Comarca tiveram início nesta terra.

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Era julho de 1821 quando a cidade se reuniu na praça para jurar fidelidade às novas bases do Reino Unido de Portugal e Brasil. Entre autoridades, soldados e curiosos, o ritual seguia seu curso previsível, até que o capitão Floriano Bento Viana rompeu o silêncio cerimonial. Em palavras firmes, exigiu a emancipação das comarcas de Curitiba e Paranaguá da Capitania de São Paulo. O brado ecoou, mas não encontrou resposta. O juiz de fora interrompeu-o com frieza — “Ainda não é tempo” — e o tempo, naquele instante, pareceu congelar.

O capitão aguardou apoio. Ele não veio. O silêncio dos companheiros foi mais duro do que qualquer punição. A Conjura Separatista morreu ali, antes mesmo de nascer. Bento Viana seguiria sua vida carregando o peso de uma luta solitária, falecendo em 1850 sem ver realizado o sonho que ousara proclamar.

Mas a história não se encerrou naquele dia.

Córdula Rodrigues França observava. Viúva, rica, senhora de sobrados e de vasta escravaria, trazia no sangue a memória dos desbravadores — descendente do capitão-mor João Rodrigues de França, último governador e sesmeiro da antiga Capitania de Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá. A ela coube, anos depois, uma tarefa inesperada: foi intimada a escrever ao tabelião da Província de São Paulo, relatando os acontecimentos da intentona de Bento Viana.

Em sua carta, Córdula não apenas narrou os fatos. Defendeu o filho, o tenente José Martins, que, mesmo após o fracasso do movimento, permaneceu fiel aos ideais emancipacionistas e seguiu servindo à causa paranaense. Sua escrita é firme, consciente, carregada da responsabilidade de quem sabe que as palavras também constroem a história.

Décadas depois, em 19 de dezembro de 1853, a emancipação enfim se concretizou com a criação da Província do Paraná. Aquilo que fora negado em praça pública encontrou, no tempo, sua realização.

E assim, entre o brado silenciado de um capitão e a carta de uma mulher, a história do Paraná se escreveu. Pela pena de Córdula Rodrigues França, compreendemos que nem toda luta se faz em voz alta — algumas resistem no papel, atravessam gerações e, por fim, vencem.


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Hamilton Ferreira Sampaio Júnior

Hamilton Ferreira Sampaio Júnior é pesquisador de história e genealogia, formado em Teologia e licenciado em História. Faz parte da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia e do Departamento Cultural do Club Litterario de Paranaguá, sendo também sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá. Atua em projetos históricos de resgate de memória, livros comemorativos e biografias, além de projetos museológicos e pesquisas documentais para segunda cidadania. Seu mais recente trabalho foi o livro comemorativo dos 100 anos da Associação Comercial Agrícola e Industrial de Paranaguá.

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