No último dia 15 de março, chegou ao fim a temporada de premiações do cinema com a maior celebração da categoria: o Oscar, em sua 98ª edição.
O curioso é que, ao longo desse circuito de prêmios que antecede a cerimônia, o que mais se viu foram artistas utilizando o palco para manifestações políticas.
Profissionais dispõem de alcance mundial, com o microfone à disposição, diante de uma plateia repleta de nomes influentes no meio cinematográfico, e não aproveitam o espaço para falar da própria trajetória, do ofício de interpretar, da obra em si ou dos colegas de cena. Preferem transformar o palco em palanque. Apresentam falas cansativas, enfadonhas, militantes, tão rasas quanto um pires.
Parecem marionetes bem manipuladas, tropeçando nas próprias palavras enquanto o veneno escorre. Pena não fazerem uso de babadores. Caso os utilizassem, precisariam ser de uma grife renomada. Afinal, abordar pobreza, fascismo, meio ambiente e outros temas ao mesmo tempo que exibem, no corpo, acessórios que valem milhões e vestimentas de alta-costura, torna tudo incoerente. Assim caminha a hipocrisia.
O Brasil carrega a fama de abrigar um povo criativo. Espera-se que essa inventividade também atinja as mentes de diretores e roteiristas que insistem em produzir obras girando sempre em torno dos mesmos assuntos. Alguém pode avisá-los de que a vida é muito mais ampla do que narrativas centradas na ditadura?
Se houver dificuldade, basta observar o que os nossos hermanos argentinos produzem. Lá, a preocupação está em fazer cinema, não pronunciamentos. Não demonstram apego à estatueta hollywoodiana, e isso lhes proporciona algo valioso e potente: liberdade.
Se a limitação persistir, vale conferir o que o diretor iraniano Jafar Panahi realizou com poucos atores e um furgão, no sensorial “Foi Apenas um Acidente”, demostrando que uma boa história não depende de grandes orçamentos, tampouco de estratégias de marketing que tentam vender produções medianas ─ por vezes até ruins ─ como se fossem excepcionais.
Então, chega-se à grande noite: o Oscar.
Sobe ao palco Michael B. Jordan para receber o prêmio de Melhor Ator. Inicia sua fala dizendo: “God is good”. Traduzindo: Deus é bom. Pronto, já é possível aliviar a tensão dos ombros. Uma mensagem que começa evocando Deus dificilmente descamba para o ódio ─ tende a conduzir ao amor. Em seguida, com lágrimas nos olhos, menciona a mãe, o pai ─ que viajou de Gana para prestigiar o momento histórico do filho ─, o irmão e a irmã. Também presta homenagem a todos os atores negros que abriram caminho para que ele estivesse ali. Foi magnífico, digno de se aplaudir em pé ─ e assim aconteceu.
E não parou por aí. O prêmio de Melhor Atriz foi para Jessie Buckley, intérprete de Agnes em “Hamnet: A vida antes de Hamlet”. O que a atriz entrega em cena está entre as performances mais marcantes do cinema. Sua Agnes é devastadora; é impossível não ser arrebatado por tudo o que propõe e realiza. O espectador termina o filme exausto, seja pela carga dramática, seja pela intensidade visceral da atuação.
Em seu discurso, Jessie destaca as mulheres, o casamento e a maternidade. Em determinado momento, dedica o prêmio ao “belo caos do coração de uma mãe”. Uma frase que resiste ao apagar das luzes do Dolby Theatre; permanece, impondo-se por sua verdade e pela força de sua reflexão.
Dois momentos que marcaram a noite. Duas falas que resgataram valores frequentemente negligenciados, transbordando emoção por meio de quem soube utilizar o tempo disponível para celebrar a arte, o cinema, a cultura, o legado, a gratidão e o respeito.
Nenhum dos vencedores precisou alfinetar terceiros, lançar ofensas, permitir que o ego se sobrepusesse ou recorrer a discursos previamente ensaiados e validados. Optaram pela genialidade da simplicidade humana, lembrando que a arte deve ser feita por pessoas e para as pessoas ─ e foi justamente aí que tudo se destacou de forma magnificamente bela.





