Crônicas

Da curiosidade ao desencanto

Por: Kátia Muniz

Kátia Muniz

Kátia Muniz

O menino nasceu em Paranaguá, cidade-mãe do Paraná.

Ainda na infância, gostava de se banhar no Rio Itiberê e logo descobriu a emoção e a adrenalina de saltar do trapiche para mergulhar naquelas águas. Com o passar do tempo, a estrutura de madeira apodreceu, restando apenas as estacas de concreto. Foi então que a mãe o proibiu de pular daquele ponto, por considerá-lo perigoso, e o garoto achou prudente atender ao pedido materno.

Certa vez, ao passar em frente ao Palácio Visconde de Nácar, perguntou à mãe o que era aquele prédio abandonado. A mulher, com pouca instrução, não soube explicar ao certo, mas recordou que o edifício já havia abrigado a Câmara Municipal de Paranaguá e acrescentou:  você ainda vai estudar sobre isso.

Mas ele tinha pressa. Era ágil e curioso, características de quem se destaca no campo do saber e, no dia seguinte, apoiou a bicicleta, já um pouco enferrujada, na parede lateral da Biblioteca Pública Mário Lobo. Ali, descobriu que os livros oferecem respostas, e foi em busca delas que se tornou frequentador assíduo daquele ambiente. 

Ao ler e estudar sobre a trajetória do município, encontrou belas imagens do Casarão Solar Guimarães, do Palacete Mathias Böhn, da Estação Ferroviária, do Club Litterario, da Casa Elfrida Lobo, do Mercado Municipal do Café, do Instituto Histórico e Geográfico, da Alfândega, entre tantos outros. 

Com o senso crítico já apurado, uma pergunta insistente o acompanhava: por que havia tamanho descuido e abandono de um patrimônio tão rico em história e memória?

Certo dia, os amigos comentaram sobre a inauguração do teatro Rachel Costa, e não demorou para que ele tivesse sua primeira experiência ao assistir a uma peça, lançando um olhar atento para a arte e tudo o que ela é capaz de provocar. A partir de então, passou a apreciar as atrações que o local oferecia. Tempos depois, foi com profunda tristeza que o jovem recebeu a notícia da interdição daquele espaço cultural.

Mas, no dia 4 de abril de 2026, o peito apertou, e a sensação de nó na garganta, acompanhada de impotência, tomou conta ao presenciar o Instituto Estadual de Educação Dr. Caetano Munhoz da Rocha ser consumido pelas chamas, um incêndio cuja causa ainda está sendo apurada. Ali, incrédulo diante do fogo, chorou ao ver quase um século de história desaparecer em menos de uma hora. Sentiu saudade de quando percorria os corredores externos e se apoiava nas grades de acabamento impecável; de observar, com atenção, os entalhes na madeira de lei, os adornos, as escadarias, os vitrais, as grandes portas das salas de aula, as pinturas no hall principal, os lustres, o piso de cerâmica, tudo em um edifício imponente, de estilo neoclássico, que se erguia soberano no alto de uma esquina.

Nesse cenário, ao crescer assistindo a perdas que, pouco a pouco, minavam qualquer fio de esperança e ingenuidade, a indagação da infância retorna: por que havia tamanho descuido e abandono de um patrimônio tão rico em história e memória?


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Kátia Muniz

Kátia Muniz é formada em Letras e pós-graduada em Produção de Textos, pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá (hoje, UNESPAR). Foi colaboradora do Jornal Diário do Comércio por sete anos, com uma coluna quinzenal de crônicas do cotidiano. Nos anos de 2014, 2015 e 2016 foi premiada em concursos literários realizados na cidade de Paranaguá. Em outubro de 2018, foi homenageada pelo Rotary Club de Paranaguá Rocio pela contribuição cultural na criação de crônicas.

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