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Crônicas

Mãe e filha

Tem sido ótima essa fase em que deixamos um pouco de lado os títulos de mãe e filha para nos tornarmos mais amigas

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Tem sido ótima essa fase em que deixamos um pouco de lado os títulos de mãe e filha para nos tornarmos mais amigas. Desde que promovemos essa fusão, adentramos nessa intimidade absurdamente fantástica.

Nossas conversas colocam os relógios para descansar. O tempo não recebeu o convite para sentar no sofá da sala, a fim de que nossos diálogos possam ganhar ares de sessão de terapia.

Nossa relação sempre foi forte. Talvez entendemos que já havíamos alcançado o limite e, por esse motivo, não atinamos que, com o passar dos anos, um relacionamento pudesse se tornar tão sólido.

Entramos numa etapa da vida em que as responsabilidades com a parte educacional foram cumpridas. Portanto, há um relaxamento e uma descontração que só têm trazido benefícios. Basta que gastemos as nossas energias ouvindo o que cada uma tem a dizer, enquanto fazemos algumas pontuações que consideramos necessárias. O resto tem sido passeio e descobertas.

Vamos nos permitir continuar desfrutando das alegrias e das emoções, enquanto dividimos as angústias, escancaramos as dores e despimos os erros. Nossas falhas nos caracterizam como humanas.

É importante saber que a sua presença tem trazido paz, frescor e doçura.

Não há nada mais enigmático do que a vida dos nossos pais. Filhos nunca sabem direito quem, um dia, eles foram. Chegamos no segundo tempo. Antes de nós, já tinham entrado em campo diversas vezes, jogado várias partidas e acumulado muitas histórias. Só conhecemos a versão apresentada como “nossos responsáveis”. O lado “certinho” do todo. Muitas vezes, acabam nos privando do relato de suas travessuras, da fase “rebeldes sem causas ou com causas”. Há sempre boas lembranças guardadas no quebrar de algumas regras. Os momentos de irracionalidade podem chegar a ser os melhores da vida. Mas essa é a parte que não nos contam. É possível que filtrem e entreguem aquilo que seja suficiente para calar a curiosidade de quem ainda está descobrindo o mundo. No mais, preferem tirar as crianças da sala.

Até o momento que as crianças crescem. Aí, serão elas que acumularão milhas em algumas peraltices e traquinagens.

Dessa forma, o ciclo vai se repetindo, porque ninguém consegue ser original numa sociedade que já vem com o script pronto. Basta reproduzi-lo. Sabiamente, já cantava Elis Regina: “Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

Chega enfim o momento em que mãe e filha se entregam aos prazeres da boa companhia e da gratidão. Falam abertamente, desatam nós, corrigem desentendimentos, não deixam lacunas e não liberam espaço para julgamentos.

Assim, costumam encher as tardes de sentimentos. Ficam, permanecem, demoram-se, enquanto oferecem colo uma à outra.