Há um consenso tácito na humanidade: quando as coisas desandam, é porque o mundo conspirou contra nós. Sempre há um culpado externo: o chefe, o governo, a economia, o vizinho barulhento, o trânsito, a má sorte. Nunca, absolutamente nunca, a hipótese de que o problema possa estar dentro da gente. Reconhecer isso? Nem pensar. Assumir que errou é quase uma amputação moral. Melhor transferir a culpa, o ego agradece.
Mas a vida, insensível à nossa vaidade, insiste em aplicar a mesma lei antiga: ninguém, a não ser nós mesmos, é arquiteto da própria vida. Cada ato, cada pensamento, é semente lançada no campo do tempo. E a colheita, ah, essa é obrigatória. Não adianta chorar, reclamar ou pedir isenção. Plantou, colhe. É cláusula pétrea do contrato existencial.
Por isso, a lógica é cruel e simples: se queremos solução para o que nos aflige, a primeira escavação deve ser feita em terreno próprio. Fora de nós, encontraremos, no máximo, paliativos. Uma aspirina para câncer de alma. A cura, se existe, nasce dentro. Mas a busca interna assusta. Não é agradável se debruçar sobre os próprios erros, reconhecer que aquela curva errada no passado foi escolha nossa. Dá trabalho, dói, desmancha a imagem bonita que cultivamos diante do espelho.
O conselho é singelo, mas exige coragem: pare. Suspenda a caça a fórmulas mágicas, gurus de ocasião e receitas instantâneas. Respire fundo. Revire as gavetas da própria memória e os armários trancados da consciência. Examine o seu cotidiano, os seus padrões de pensamento, os hábitos que veste sem notar. Em algum ponto, lá atrás ou bem aqui, está a semente do que hoje lhe incomoda.
Identificada a origem, a equação se resolve: corte-a. Elimine o foco e a consequência murcha sozinha, como planta sem raiz. Não há milagre, não há segredo. É apenas a vida, que apesar de complexa, obedece a leis simples.
A dificuldade não é entender isso. É aceitar. Porque aceitar que o problema está em nós é aceitar também que a solução sempre esteve ao alcance da mão. E isso, para o nosso orgulho, é quase imperdoável.




