Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá

As raízes da nossa fundação: como Paranaguá virou cidade.

Alessandro Pires Staniscia – Orador do IHGP A história de Paranaguá é feita de resistência, bravura e algumas peculiaridades. Nascida nas proximidades de um rio e marcada por um Colégio ...

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Alessandro Pires Staniscia – Orador do IHGP

A história de Paranaguá é feita de resistência, bravura e algumas peculiaridades. Nascida nas proximidades de um rio e marcada por um Colégio Jesuíta de paredes tão espessas que mais parecia uma fortaleza, a povoação original instalada na Cotinga, lá permaneceu por quase 80 anos. 

Foi só em 1648, graças aos esforços do Capitão-Mor Gabriel de Lara, que o local conquistou o título de Vila, este ano é o marco da emancipação política de Paranaguá e considerada a data de sua fundação. 

A partir dali, foram necessários 194 anos de muita paciência para que a cobiçada elevação à categoria de Cidade finalmente acontecesse.

Esse salto para “Cidade”, assinado em 5 de fevereiro de 1842, não foi um mero acaso administrativo, mas um prêmio pela lealdade política da população. Durante a temida Revolução Farroupilha, havia um receio real de que as tropas gaúchas invadissem a região (então pertencente à província de São Paulo) para derrubar o Império. Paranaguá não apenas se manteve fiel à Coroa, como protagonizou um curioso episódio marcial em 1839: com um único e certeiro tiro de canhão da fortaleza da barra, a cidade repeliu lanchões republicanos que tentavam invadir a baía, forçando-os a fugir para o mar aberto e selando o compromisso que lhe garantiria o novo status administrativo.

No século XIX, a elevação de uma vila a cidade no Brasil representava o auge do reconhecimento político e econômico. As principais vantagens incluíam a autonomia administrativa, a instalação de instituições superiores (como comarcas), e a atração de investimentos estatais e prestígio, mais um retrato da força e importância política de nossa de Paranaguá.

Mas como era a recém-criada cidade de 1842? Longe de qualquer planejamento urbano, Paranaguá era um aglomerado de cerca de 300 casas desalinhadas, ruas tortuosas e apenas dois mil habitantes. Curiosamente, áreas que hoje são nobres ou centrais eram os locais mais evitados da época. A atual rua Faria Sobrinho, por exemplo, carregava o sombrio nome de “Rua das Mortes”, abrigando tavernas de má fama e conflitos sangrentos. Perto dali, vizinho à atual Praça Fernando Amaro, ficava um cemitério de emergência para vítimas de varíola e febre amarela. Ao sinal das badaladas da Ave Maria, nenhum cidadão prudente ousava passar pela região, temendo tanto os vivos criminosos quanto os fantasmas que povoavam o imaginário popular.

Cercada por pântanos, mangues e matas virgens tão espessas que serviam de defesa natural contra invasores — como os espanhóis em 1777, que nem ousaram desembarcar temendo atolar no lodo —, essa Paranaguá oitocentista exalava um ar de mistério e perigo. Foi dessa mistura improvável de ruas enlameadas, marinheiros, escravizados, comerciantes e uma inabalável fidelidade política que se forjou a maior e mais rica povoação da comarca na época. Relembrar essa gênese é perceber que a importância histórica da nossa cidade foi conquistada com muita bravura, contrastes e uma vivência cotidiana que daria inveja a qualquer roteiro de cinema.

Referência: NASCIMENTO JUNIOR, Vicente. História, crônicas e lendas. Paranaguá: Vicentina, 1980. 418 p.


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