Sob a Ótica Maçônica

A Arte de Não Estar

Por Fonseca.R

grande oriente parana

Ele está em toda parte. Na fila do banco, no escritório, na reunião de condomínio, na mesa ao lado do bar, no grupo de WhatsApp que nunca responde — mas lê tudo, pode apostar. Ele é o Omisso, essa criatura sorrateira que aprendeu a transformar a inação numa espécie de filosofia de vida, a covardia num estilo pessoal, e a conivência num verniz respeitável de prudência.

Não o subestime. O Omisso não é um ser passivo por acidente. É por vocação. Há nele uma engenharia refinada do esquecimento conveniente, uma arquitetura perfeita do “não me envolvo”. Enquanto o mundo pega fogo ao redor, ele aperfeiçoa a arte de cruzar os braços com elegância. Observa tudo com aqueles olhos miúdos e atentos, processa, classifica, guarda. Mas fica quieto. Quieto e imóvel, como um lagarto ao sol — exceto que o lagarto, ao menos, caça.

O silêncio do Omisso, convém esclarecer, não é o silêncio dos sábios. É o silêncio dos convenientes. Porque ele fala, sim — só não fala na hora certa, no lugar certo, para as pessoas certas. Fala pelos cantos. Sussurra nos corredores. Alimenta a fofoca com uma colher de chá e um sorriso de inocente. É o grande fornecedor do burburinho sem rosto, o anônimo abastecedor de maldades que circulam sem assinatura. Tem a língua ativa e a espinha mole. Uma combinação que a natureza, em seus dias de mau humor, teima em repetir.

Quando algo dá errado — e algo sempre dá errado —, o Omisso tem seu catecismo pronto: não é comigo, não tenho nada com isso, não é da minha alçada. Uma ladainha ensaiada, entoada com a convicção de quem acredita, de fato, que o mundo é um problema alheio. Jamais uma ação. Jamais um gesto. Jamais o mínimo esforço para corrigir o erro, atenuar o estrago ou simplesmente dizer em voz alta o que todo mundo já sabe em voz baixa.

E é justamente aí que reside o seu pecado mais grave: o Omisso não é inocente. Quem se omite escolhe um lado — invariavelmente, o lado errado. A omissão não é neutralidade; é cumplicidade com roupa de neutro. É o portão aberto para o ladrão, a testemunha que olha para o outro lado, o vizinho que ouviu os gritos e achou melhor não se meter. A história está cheia de omissos ilustres, e nenhum deles saiu bem na foto.

O que assusta não é a existência do Omisso — ele é tão antigo quanto a covardia, e a covardia é tão antiga quanto o homem. O que assusta é a sua multiplicação, a sua normalização, a crescente sensação de que se omitir é uma postura legítima, quase adulta, quase inteligente. Que se envolver é ingenuidade. Que tomar partido é falta de maturidade. Que agir é perda de tempo.

Não é. Omissão é covardia com boa assessoria de imprensa.

Num mundo que cada vez mais recompensa o silêncio calculado e pune a palavra franca, o Omisso prospera. Cresce. Reproduz-se. Ocupa espaços que deveriam pertencer a quem tem voz e a usa — para o bem, para a verdade, para o incômodo necessário que toda sociedade viva precisa suportar.

Fique atento. Ele está perto de você. Talvez do seu lado. Talvez, em alguns momentos, dentro de você.

E essa é a parte mais difícil de encarar.

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Grande Oriente do Paraná

Sereníssimo Grão Mestre – Vladimir Pires Martins

G. Secretaria de Comunicação e Imprensa – Luís Fernando da Silva Dias


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