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Política

Primeira vereadora surda na história de Paranaguá reforça luta pela inclusão

“Meu mandato na Câmara será de luta, de acessibilidade, mobilidade urbana para PCDs, luta pelas mulheres, pelas colônias e demais bairros da cidade, que precisam que haja esta representatividade”, afirma a vereadora

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Única mulher eleita, Isabelle Dias salienta também seu compromisso com a causa feminina

As eleições municipais de 2020 trouxeram um feito no contexto democrático de Paranaguá: Isabelle Dias (PSB), com 555 votos, foi eleita a primeira vereadora surda da história do município. Em entrevista exclusiva à Folha do Litoral News, a vereadora eleita destacou que seu mandato será de luta pela inclusão, mobilidade urbana para PCDs (Pessoas com Deficiência), pelo direito das mulheres e na representatividade de todos os eleitores parnanguaras. Casada com Felipe Cordeiro Meduna, Isabelle tem 30 anos de idade, é mãe do Davi, de apenas dois anos, e destacou que o esforço na campanha eleitoral foi recompensado com uma cadeira no Legislativo, sendo ela a única mulher entre a bancada de vereadores de Paranaguá de 2021 a 2024. 

Professora de Língua Brasileira de Sinais (Libras), Isabelle é pedagoga, formada no Magistério, pós-graduada em Educação Bilíngue, está concluindo o curso superior de Letras – Libras e fará o mestrado em breve. “Na verdade, sempre lutamos pela causa, algo que se iniciou no CEDAP, na Escola dos Surdos, junto com a comunidade surda de Paranaguá e do Paraná. Lutamos pela Lei de acessibilidade, Lei de Libras, que é de 2002, algo que foi aprovado por meio da Lei n.º 10.436 no dia 24 de abril. Em seguida, lutamos também para que não fosse fechada a escola bilíngue, algo que o MEC queria na época”, destaca.

“Assim iniciamos a luta pela importância de que os surdos tivessem aquela localidade e que lutássemos pela inclusão, porque, na verdade, o CEDAP é a primeira escola de surdos do Paraná. Por isso a nossa luta, garra e determinação em defender o CEDAP, importância que se intensifica com a falta de acessibilidade existente. Isso originou a necessidade de representatividade na Câmara junto às deficiências, a importância de estarmos neste local e sermos a voz dos surdos no Legislativo. Isso me motivou para galgar a candidatura”, afirma a legisladora eleita.

Apuração e vitória

Isabelle destacou a tensão ao acompanhar o resultado nas eleições divulgada no domingo, 15, e como descobriu que tinha sido eleita. “Não consegui me organizar fisicamente, as pessoas me pediam calma, meu filho e toda a família me tranquilizaram, uma tia minha chegou a passar mal. A emoção foi muito forte. Demorou o resultado da apuração, isso piorou a tensão”, destaca. Ela destacou que teve uma hora que chegou a pensar que não seria eleita. “A gente foi andando de carro, não tinha chegado ao final do resultado dos eleitos, somente em ordem de votos, e fui embora de onde estávamos. O meu esposo ouviu no rádio que eu tinha sido eleita e me avisou. Eu comecei a chorar no meio da rua, voltei para a casa da minha família e todos estavam na rua já comemorando. Me emocionei muito”, salienta.

“Minha maior emoção foi pela representatividade da comunidade surda. Meu coração palpitava, eu me senti e estou muito feliz. Tive o apoio de toda a minha família e de todos os eleitores que apoiaram a causa”, destaca. 

Dificuldades da campanha

Isabelle destacou que a campanha eleitoral foi gratificante, mas muito difícil. “Algumas pessoas me olhavam com certo preconceito durante a campanha pelas ruas, mas a grande maioria foi amorosa e respeitosa. Não foi fácil, houve momentos de muita luta interna e choro. Meu filho, de apenas dois anos, vendo todo este sofrimento, veio para mim e pediu para que não chorasse, que eu não ficasse triste porque eu iria vencer. Fiquei abismada e também mais tranquila. Foi algo profético. Eu estava subindo com ele no colo e meu filho disse que viu Jesus na minha janela, foi algo muito forte e emocionante”, completa.

Atuação no Legislativo

“Agradeço a Deus. Sou a única mulher que estará na Câmara de Paranaguá. Me sinto muito feliz, mas também quero aplaudir a todos os candidatos e candidatas mulheres que se esforçaram para estar na campanha. Não é fácil. Na Câmara eu quero representar a acessibilidade, algo que é uma luta de anos junto com a causa das deficiências, bem como a mobilidade urbana para PCDs que é uma das minhas pautas prioritárias”, salienta. 

Segundo ela, o compromisso é grande em representar as mulheres parnanguaras. “Eu quero ser a voz das mulheres que lutam, de todas elas. Não é só porque eu sou surda que meu foco é só a surdez, a abrangência da minha atuação é maior. Quero ser a voz do povo”, diz. “Quero criar projetos específicos para todas as mulheres. Temos muitos projetos, mas as mulheres que tiverem iniciativas podem e devem vir conversar comigo e apresentar essas ideias. Não quero apenas eu criar meus próprios projetos, quero a participação de todas, quero apoiar e representar todas. Juntas somos mais, isso faz parte desta construção histórica para mudar, fazer algo novo, preciso do apoio de todas, pois esta é uma luta geracional”, destaca.

Língua Brasileira de Sinais no plenário

“O principal é dialogar com todas as pessoas, de todas as áreas e partes, deficientes, sentindo empatia”, relata a legisladora eleita (Foto: Divulgação/Facebook)

Isabelle afirma que a luta para que houvesse um tradutor e intérprete de Libras na Câmara de Paranaguá é algo antigo e feito pela comunidade surda. “Presenciei, frequentei a Câmara em vários momentos, inclusive quando não tínhamos tradutores e intérpretes. Em 2014, a falecida Bruna já estava lutando, representando e trazendo esta acessibilidade ao local, quando ela me avisou sobre a necessidade de continuar esta luta, algo que continuamos, é uma luta contínua, complicada e difícil”, acrescenta.

“É importante dizer que a Câmara não trabalhou sozinha este projeto. A comunidade surda lutou muitos anos por isso, há pessoas que disseram que criaram a iniciativa de levar um tradutor e intérprete para a Câmara, não é isso, a comunidade surda de Paranaguá é unida e é por isso que conseguimos levar a Nice e o Eugênio ao Legislativo, os dois foram chamados no último mês de dezembro de 2019 à Câmara, após uma licitação que foi realizada”, acrescenta.

Para exercer o seu mandato, a vereadora eleita destacou que está traçando uma estratégia para atuar na discussão no plenário do Palácio Carijó. “Precisamos de um telão, porque é meu direito à informação. É importante dizer que não é linguagem de Libras, mas sim é uma língua brasileira de sinais e que sou Surda e não surda-muda. Precisamos também de um tradutor e intérprete de voz, que tenha acessibilidade para que não se misturem as coisas, pois quem vai interpretar são dois intérpretes e um tradutor de voz, uma outra pessoa que vai traduzir para mim e dois intérpretes que já estão lá. Já tenho este sonho e meta, um projeto para que isso aconteça, com foco na acessibilidade”, diz.

“Todos os vereadores terão que se adaptar à inclusão. Eles vão olhar para mim, não para o tradutor e intérprete, porque o tradutor e intérprete vai ser a minha voz, eu que vou estar ali falando. O tradutor é a minha voz”, afirma. 

Repercussão Nacional

A vereadora comentou a repercussão nacional da sua eleição, algo que foi divulgado em veículos de imprensa, perfis em redes sociais, e até mesmo pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro. “No Brasil tivemos 66 surdos candidatos a vereador, entre eles quatro aqui no Paraná. Em todo o País conseguimos eleger apenas duas vereadoras surdas. No Paraná nós somos unidos, mas no Brasil a comunidade surda é muito forte e unida. Nesse sentido temos a Priscilla Gaspar, que é a secretária nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do Brasil, foi ela que informou à primeira-dama, Michelle Bolsonaro”, salienta, destacando o apoio de entidades estaduais e federais da comunidade surda.

“Houve uma propagação muito alta, isso foi um marco na comunidade surda. Em 1880, houve o Congresso de Milão, essencial para nós, antes disso o surdo não era considerado cidadão, não tinha voz, não tinha direito de voto. Não tínhamos como estudar. Este foi um marco histórico, hoje nós, surdos, podemos tudo, podemos fazer o que queremos, por isso a grandiosidade desta luta, desta vitória coletiva e abrangente. Estou muito feliz, todos os surdos ficaram felizes, recebi diversas mensagens de todas as partes, bem como muitos convites, projetos, enfim, hoje me sinto orgulho de ser parnanguara, de estar aqui e ter sido eleita para apoiar a nossa cidade”, explica. 

Mensagem aos parnanguaras

A vereadora eleita fez questão de agradecer a todos que apoiaram sua candidatura e mesmo os que não votaram nela, mas que torceram pela sua eleição. “Tivemos muitos candidatos, me sinto feliz por todo este debate democrático, conheci muitas pessoas na campanha. Meu mandato na Câmara será de luta, de acessibilidade, mobilidade urbana, luta pelas mulheres, que precisam que haja esta representatividade. Eu sei desta responsabilidade”, informa.

“O principal é dialogar com todas as pessoas, de todas as áreas e partes, deficientes, sentindo empatia. Quero sempre sentir empatia, não posso pensar que ganhei, que estou bem e tranquila, pois a vitória foi minha para que eu possa representar a importância dessas minorias também. Tudo é empatia, troca e é isso que quero representar”, finaliza. 

A tradutora e intérprete de Libras Nice Celestino apoiou a vereadora durante a entrevista realizada pela Folha do Litoral News. 

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