Juíza realiza sonho de criança e hoje luta pela igualdade de gêneros

8 de março de 2020

A juíza da 1.ª Vara Criminal de Paranaguá, Dra. Cíntia Graeff, de 32 anos, nasceu em Missal, município no interior do Paraná. Desde criança, seu sonho era ser juíza, cursou Direito na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e alcançou seu objetivo. Hoje, coloca seu conhecimento em prática no Fórum de Paranaguá e se depara rotineiramente com casos de violência contra a mulher, julgando, inclusive, agressores que praticaram crimes de feminicídio.

E eles não são poucos. A realidade apresentada no litoral não é das melhores quando o assunto é violência doméstica. São muitas mulheres que sofrem em consequência da cultura do machismo e da desigualdade de gênero, o que, em muitas situações, acaba acarretando em morte da vítima. No ano passado, ao menos quatro júris populares, envolvendo crimes de feminicídio foram realizados somente em Paranaguá.

“Desde criança eu sempre quis ser juíza. Até foi motivo de surpresa e questionamento pelos meus pais, que se perguntavam de onde eu tinha tirado essa ideia. Eu mesma não sabia explicar, provavelmente foi assistindo a algum filme, pois não tenho familiar nem conhecido na área jurídica. Já entrei na faculdade com essa intenção, desde o início. Fiz bastante concursos por três anos, estudava e trabalhava até conseguir passar”, contou Dra. Cíntia.

Vulnerabilidade Social

Segundo ela, com o passar do tempo, ficou mais preocupada com a questão da violência doméstica por entender a gravidade desse fenômeno.

“Tive contato com esses números, que são alarmantes. Na prática do dia a dia, comecei a notar uma repetição de padrões em diversas famílias e mulheres das mais variadas condições, desde mulheres com pouca instrução, dependentes economicamente, até mulheres independentes profissionalmente, mas que ainda assim sofrem a violência de gênero. Elas tentam romper o relacionamento e vem a agressividade, em razão do sentimento de posse, que é a principal chave para entender o fenômeno”, alertou Dra. Cíntia.

Independente de ser mulher ou homem na condição de julgar casos de violência doméstica, a juíza acredita que é preciso ver o outro como ser humano antes de tudo. “Claro que, sendo mulher, conhecendo a situação de vulnerabilidade, a sensibilidade é grande. Tenho muitos colegas juízes que são tanto ou até mais engajados na causa por também entenderem a gravidade do problema que extrapola qualquer condição pessoal que é decorrente dos direitos humanos, de olhar para o outro como ser humano e ter compaixão”, observou a juíza.

Lares sem violência

O projeto “Educação pela Paz: Construindo Lares sem violência”, de iniciativa da Dra. Cíntia, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Paranaguá, levou palestras para as escolas com o intuito de conscientizar as crianças sobre a violência doméstica.

“É importante que o tema seja tratado com as futuras gerações, desde as crianças até a adolescência, porque essa luta demanda um rompimento de padrão que vem se repetindo de geração em geração. Só será rompido quando gerações futuras forem conscientizadas, homens e mulheres. É algo que parece tão primário, mas é a chave da questão. Percebi com as crianças que a informação já é bem diferente da que eu tive na minha infância, mas ainda assim é um processo. No diálogo com as crianças ainda é possível perceber várias expressões machistas que estão enraizadas em todos nós que vamos repetindo sem perceber”, relatou a juíza sobre a experiência com os estudantes.

Preconceito na profissão

A juíza afirma que pelo fato de ser mulher e jovem observa um preconceito, mas que nem sempre é explícito. “Foram diversas situações em que eu pude perceber o preconceito velado até um certo sarcasmo de várias partes, tanto em situações entre profissionais, quanto na vida particular. Parece que as mulheres precisam estar a todo tempo provando sua competência e capacidade”, contou Dra. Cíntia.

Segundo ela, ainda há muito a ser trilhado para que haja uma situação de igualdade de gênero.“Somente em 1932 as mulheres passaram a ter direito a votar e em 1946 o voto passou a ser obrigatório para as mulheres. Vemos que a história pela constituição é muito recente e, desde então, muito se conquistou, mas é preciso que se busque romper esses padrões culturais e que se trate o assunto com a seriedade devida e que todos busquem de fato a igualdade, nem menos nem mais, mas igual a todos os seres humanos, sem distinção”, declarou Dra. Cíntia.

Atlas da violência

A última publicação do Atlas da Violência, de 2018, é a principal pesquisa que aponta os casos de violência. Os dados mostram que uma em cada quatro mulheres passou por violência no Brasil e, a cada duas horas, uma mulher morre vítima de violência. O País ocupa o 5.º lugar no ranking de feminicídio, perdendo somente para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres.

“A gente ouve pessoas debochando da situação, dizendo que a violência doméstica não existe, que é ‘mimimi’ de feminista. Certamente, são pessoas que não conhecem os números, que ignoram a realidade. A gente não pode debochar dessa situação, é um assunto muito sério para ser tratado com piadas como acontece muitas vezes”, concluiu a juíza.