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Crônicas

Kátia Muniz é formada em Letras e pós-graduada em Produção de Textos, pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá (hoje, UNESPAR). Foi colaboradora do Jornal Diário do Comércio por sete anos, com uma coluna quinzenal de crônicas do cotidiano. Nos anos de 2014, 2015 e 2016 foi premiada em concursos literários realizados na cidade de Paranaguá. Em outubro de 2018, foi homenageada pelo Rotary Club de Paranaguá Rocio pela contribuição cultural na criação de crônicas.

Relato de um pai

08 de agosto de 2019

Hoje, adentrei o seu recinto: o quarto. Abri uma gaveta e alguns dos seus brinquedos estavam lá. Esses, em especial, sua mãe fez questão de preservar, não foram para as doações. Ela os guardou dizendo que, futuramente, seriam dos seus filhos, nossos netos. As mães têm essa capacidade dobrada de pensar em tudo e são muito especiais, até porque geram vidas.

Fui remexendo o passado, e sua infância foi saindo da gaveta. O primeiro carrinho da Hot Wheels me saltou aos olhos. Enquanto isso, as lembranças chegam com ímpeto. Ouço o seu “vrum-vrum”, uma das onomatopeias mais bonitas da inocência. Quantas corridas imaginárias você fez com esse e com tantos outros carrinhos? Eu participei de algumas, principalmente, na pista de brinquedo em que enfileirávamos vários carrinhos e você vibrava quando o seu chegava em primeiro.

Sua mãe também teve o cuidado de guardar os helicópteros e os aviões. Você aos quatro anos de idade, cismou que seria piloto. Por inúmeras vezes, decolou da sala da nossa casa levando sua mãe e eu como passageiros. Sobrevoamos cidades, adentramos países acompanhando o destino do seu pensamento fértil. “Senhores passageiros, decolagem autorizada.” E lá íamos nós, grudados no sofá, fazendo de conta que eram as poltronas da aeronave.

Fizemos viagens fantásticas nas mãos de um piloto cuja dicção apresentava falhas. Os “erres” não existiam na sua fala e a letra “c” era trocada por “t”. Mesmo assim, eu e sua mãe confiávamos cegamente nas suas horas de voo.

Ela, sempre ela, costumava filmar as suas brincadeiras. Vídeos curtos em várias idades, com o propósito nostálgico de fazer verter as nossas lágrimas no futuro.

Na mesma gaveta, encontro alguns desenhos seus. Aqueles rabiscos infantis que são verdadeiras obras de arte para o autor e indecifráveis para o restante da humanidade. Em um deles, o clássico: o desenho da família. Lembro que sua mãe lançou um olhar perplexo ao ser retratada com os cabelos desajeitados. Mulheres! Eu achei que estava ótimo, mesmo sendo um risco definindo o corpo e um círculo indicando a cabeça.

“Feliz Dia dos Pais”, você me diz. E confirmo que a minha felicidade se fez plena desde o dia que eu o vi pela primeira vez. 

Dentre as maravilhas da vida, está a possibilidade de poder acompanhar seu crescimento, enquanto meus cabelos embranquecem.

Fotos

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