“As Instituições podem ser definidas como meios de aperfeiçoar os indivíduos”, assevera Ananda K. Coomaraswamy, num profundo estudo intitulado “O Fundamento Religioso das Formas da Sociedade Indiana”. Todas as civilizações tradicionais são or-ganizadas com esse intento. Portanto, se estruturam em princípios espirituais, mesmo que transcendentes, e pertencendo a uma ordem de conhecimentos acima do domí-nio vulgar, que, em geral, é unicamente externo e superficial. Todas as normas que lhes regem as atividades e relações sociais, neles se fundamentam e deles tiram a sua autoridade.
Baseados nesta concepção, os hindus consideram que os móveis que impelem os homens (purushartha), quer no sentido da vida ativa quer no da vida contempla-tiva, são de quatro naturezas:
- Kama: que o leva a procurar satisfazer os desejos próprios da índole passional;
- Artha: que o lança em busca de valores e riquezas necessários ao tempera-mento ambicioso e dominador;
- Dharma: que o compele a exercer as funções públicas e privadas correspon-dentes aos deveres da casta ou família a que pertence;
- Moksha: que o tange a realizar a finalidade suprema da vida: alcançar a liber-tação, emancipando-se assim, para sempre, de todo o desejo, de todas as necessida-des, de toda a responsabilidade social.
Este é o mais elevado ideal a que o homem pode aspirar. Contrasta com os inte-resses próprios da vida ativa, pois, abandona o mundo, renunciando, de uma só vez, a tudo, funções, bens terrenos, família, ritos e deveres de qualquer natureza. É o con-templativo, o sannyâsî, o peregrino (parivrâjaka): “o que não tem mais onde pousar a cabeça”. Honrado por leigos e religiosos, erram pelos caminhos, levando a sua palavra carinhosa e inspirada a todos que precisam de consolo ou instrução. Seguem o con-selho de Cristo: “Distribui o que possuís e segue-me”. Foi-se com Deus, sem porém abandonar os homens.
Desses sublimes vagabundos sem lar, disse Eckhart : “Bendito é o reino em que reside um deles; num instante fazem mais benefícios e mais duradouros do que todas as boas ações praticadas no mundo”. A eles se referia Platão, ao falar nos homens considerados inúteis pelo mundo, mas que são, na realidade, os seus verdadeiros pilotos.
Para dar expansão às tendências naturais características dos vários tipos huma-nos e permitir-lhes gradualmente atingir a perfeição, instituíram-se na antiga Índia, as castas (chaturvarnas: quatro cores), como a expressão social das naturezas predominantes entre determinados grupos, que tinham direitos e deveres minuciosa-mente especificados pelo “Mânava-Dharma-Shastra” (O Código do Manu).
Em princípio, este sistema corresponde a dispor a população numa ordem hie-rárquica, em que as responsabilidades aumentam com a ascensão social, porque: “é somente a representação concreta, comenta Shrî Aurobindo, duma verdade espiritual que é em si mesma independente de toda a forma; baseia-se no conceito de que as obras justas são a manifestação concatenada da natureza do ser individual que as re-aliza. Por consequência, é ela que lhe aponta o caminho e o campo de ação na vida, segundo as suas tendências inatas e a função mais adequada para expressa-las”. Po-rém, continua o grande representante moderno do pensamento hindu, “o sistema atual de castas é muito diferente do antigo ideal de sociedade do chaturvarna”. Opi-nião corroborada por Gandhi, quando afirma: “a atual concepção de castas é uma perversão da original” (Yong, Índia, 07.05.1925). Não correspondem mais, hoje, às descrições clássicas da “Bhagavad-Gitâ” (IV, 13 e XVIII, 40-44):
“A ordem quádrupla foi criada por mim segundo as diferenças de qualidade e de funções ativas. Sabe que fui eu que a instituí (estas quatro classes de ações humanas), eu que sou entretanto o eterno inativo.
Não há criatura na terra ou nos céus entre os deuses, que não esteja sujeita à ação das três qualidades (gunas) nascidas da natureza.
As obras dos brâmanes, dos kshatriyas, dos vaishyas e dos shûdras se distin-guem segundo as qualidades oriundas da formação interior de cada um deles.
Calma, domínio de si, asceticismo, pureza, longanimidade, integridade, conheci-mento, aceitação da verdade espiritual, tal é a atividade do brâmane, originada por sua própria índole (svabhava).
Heroísmo, intrepidez, resolução, destreza, incapacidade de fugir à luta, genero-sidade, autoridade (Ishvara-bhava, temperamento senhoril) – é a atividade natural do kshatriya”.
Agricultura, criação de gado, comércio, artesanato – é a atividade normal do vaishya. Todo serviço braçal faz parte da função do shûdra”.
Desse modo, cabe ao brâmane a conservação e a transmissão dos textos sagra-dos, a cultura da ciência, o ensino e tudo quanto diz respeito aos ritos religiosos.
É dever do kshatriya manter a ordem estabelecida, proteger o fraco, defender o direito das gentes e usar de força todas as vezes que se fizer necessário. Entre eles se recrutam os soberanos.
Tudo que concerne às riquezas, aos valores é domínio do vaishya: comércio, agri-cultura, finanças.
O trabalho rude e penoso do serviçal, do jornaleiro, é o apanágio do shûdra.
Bhagavan Das, num discurso em Benares, disse com muita propriedade: “a Índia de outrora repartiu as honras, o poder e as riquezas, respectivamente com os Brâma-nes, Kshatriyas e Vaishyas”.
Muito sabiamente, não concentraram num único grupo privilegiado todos esses elementos que, tradicionalmente eram incompatíveis: a riqueza, que não levava ao poder, nem conferia honrarias; o poder, que não dava riqueza nem honras; as honras, que não produziam riqueza, nem elevavam, ao poder.
Max Müller reconhece “que os Brâmanes eram, social e intelectualmente, uma classe de homens de cultura superior. Formavam na sociedade hindu um elemento de valor reconhecido e essencial. Como viviam para os outros, e eram excluídos das pro-fissões lucrativas, tornou-se dever da comunidade subvencionar-lhes as necessida-des”. Por isso a mais alta casta da sociedade indiana era pobre, mas representava no conjunto da instituição a Autoridade Espiritual, que lhe conferia a suprema dignidade, mas lhe não dava direito a exercer qualquer, poder ativo.
Era próprio do kshatriya, o nobre, fazer reinar a justiça para que as outras castas pudessem prosperar. De modo algum ele podia faltar à palavra empenhada. Constituía o Poder Temporal, suzerano, que era realmente detentor da força. Porém, não podia esquecer a recomendação do Arthashastra (o Livro da Ciência de Governar): “o essen-cial nesta arte é o chefe ter perfeito domínio de si”, e portanto não “governar visando o seu interesse pessoal”, que o transformaria num tirano, indigno da sua investidura. Os Vaishyas eram os fomentadores da riqueza material sob todas as suas formas.
Eram a casta abastada, que distribuía com os necessitados, através dos kshatriyas e brâmanes, tudo quanto precisavam.
Estas três castas eram formadas pelos chamados “duas vezes nascidos” (dvijati). Porém, “ao vir ao mundo, todos os homens são shûdras”, diz o Markandeya-Purâna (XXVIII, 10) – (“só quando recebem o cordão sagrado é que se tornam dvijati”. Por-tanto todos eram ao nascer, iguais, só quando começavam a demonstrar as suas apti-dões, é que se submetiam às cerimônias tradicionais que lhes davam o direito à hie-rarquia correspondente. Em conjunto, as três ordens estavam divididas em quarenta e nove gotras, segundo o rishi, a que remontava as suas origens genealógicas.
A maioria do povo pertencia à casta dos shûdras. Tinham estes, relativamente, mais liberdade de ação e menos entraves éticos e religiosos. Podiam comer certas espécies de carne e habitar onde desejassem, o que era formalmente negado às ou-tras. Proibiam-lhes aprender os Vedas, mas era-lhes permitido estudar os Itihâsas e os Purânas, o que lhes facultava realizar o supremo ideal, a libertação.
O casamento ilícito entre membros de castas diferentes ou contrários às regras, a omissão dos rituais prescritos são a origem das classes impuras” – legisla o Código do Manu. Constituíram-se deste modo os párias: – hindus sacrílegos, que proliferaram no opróbrio. Não estando mais peados pelas rígidas normas que regulavam a vida das quatro castas, entregaram-se aos misteres interditos aos demais e, em geral, não se-guiram mais os costumes de higiene ritual, deixando de banhar-se, comendo carnes condenadas, e usando imoderadamente o álcool. E assim cada vez mais se degrada-ram, “vivendo hoje muitas vezes em condições, abjetas, numa promiscuidade, repug-nante, nutrindo-se de alimentos putrefatos e, não raramente, em completa embria-guez. Quando se conhece a mania do hindu pela limpeza exterior e interna, não de-vemos ficar admirados de os considerar intocáveis (asprihaya), mas sem os odiar ou sentir por eles o menor desprezo. Evitam apenas o seu contato físico, para não se ma-cularem” – escreve Jean Herbert em “Spiritualité Hindoue”. De resto, acrescenta este autor, “os párias não formam um grupo homogêneo. Estão subdivididos em numero-sas categorias, tão ciosas de suas prerrogativas particulares, que se tornam social-mente tão intolerantes umas para as outras como os brâmanes mais escrupulosos. “Ninguém na Índia, – confessa imparcialmente Sir M. Monier Williams (“Modern India and Indians”, 49) – considera humilhante pertencer a uma casta inferior; o mais ínfimo pária tem tanta vaidade pela sua que procura conservá-la como o brâmane da mais elevada hierarquia”. Por isso não se lastimam, nem se Julgam rebaixados ou espolia-dos dos seus direitos humanos. Das suas fileiras têm saído alguns dos mais notáveis homens do país: políticos, industriais, poetas, professores, cientistas e até santos, que se fazem respeitados ou venerados pelos seus compatriotas.
“Na época atual, cita Jean Herbert no livro aludido, Rabindranath Tagore, que exerceu, tanto pela sua obra escrita, como pela Universidade de Santiniketan, uma prodigiosa influência, não só em Bengala senão em toda Índia, pertencia a uma família de patitas, isto é, intocável até mesmo para os intocáveis”. “No domínio espiritual – diz Herbert – é ainda mais surpreendente, pois a Índia se orgulha dos seus grandes santos párias Nanda, Ravindas, Chokamela e Haridas, que são adorados pelos brâma-nes mais ortodoxos.
Nenhum hindu, o mais audacioso e inconoclasta, combate o sistema de castas, porque lhe reconhece o valor social e religioso.
Buda, como Cristo, não tentou mudar a estrutura da sociedade. Ele vivia num reino que não era deste mundo e no qual nada era, segundo suas próprias palavras. A posição que tomou em face do sistema de castas não era igualitário no sentido mo-derno da palavra, apenas afirmava que todos os homens (e todas as mulheres), têm idênticas capacidades espirituais; porém, distinguia com atenção o brâmane de nas-cimento daquele que merece este epíteto por sua conduta e saber. Nada havia de novo nestas proposições, se bem que fosse necessário reafirmá-las. No hinduismo, de fato, como acentua o professor Edgerton, “um membro de qualquer casta, mesmo um pária, pode ser um monge errante que procura a verdade”. Ninguém tem o direito de perguntar a um destes sannyâsi, o que foi no mundo, porque ele deixou de ser alguém, como o Espírito de Deus que “não procede de um lugar determinado, nem se confunde com o indivíduo”. Estas palavras do erudito historiador da arte indiana e conservador do Museu de Boston, que foi um dos melhores intérpretes da sua tradi-ção no Ocidente, mostram claramente o ponto de vista clássico.
Não estranhamos assim que o admirável Ramakrishna tenha dito: “As regras de castas desaparecem naturalmente para o homem que chegou à perfeição, porém, en-quanto esta sublime experiência não for realizada, todos devem observa-las, porque é uma instituição moldada na própria “natureza humana, o que levou o hindu a trans-forma-la numa verdadeira ciência”, completa Gandhi numa das suas obras. Ela tem por fim imediato preparar os homens, de acordo com as suas possibilidades naturais, para a verdadeira meta da vida: o conhecimento de Brahmã (a Realidade Absoluta). Este ideal supremo se faz sentir em todas as manifestações da atividade social indiana. A sua própria organização política é uma “associação da Autoridade Espiritual com o Poder Temporal”, escreve Ananda K. Coomaraswany, que cooperam como num matri-mônio perfeito, uma das funções principais do Grão-Sacerdote ser o “o olho que vela pelo mundo” para “ver se o Rei não está procedendo mal” (“Jaiminîya Brâhmana”, III, 49). E assim, na China como em Platão, que pensa encontrar as mesmas castas – génos: jâti na cidade como na alma de cada um de nós (“República”, 551, C), esta doutrina, aplica-se à nossa formação política individual, que exige um Padre para a Vida Interior e um Rei, para os negócios exteriores, faculdades sensíveis e órgãos físi-cos de percepção. Formando este mundo santo que tanto queria conhecer, onde o Sacerdócio e a Realeza caminham de mãos dadas. (“Spiritual Authority and Temporal Power in The Indian Theory of Goverrunent”, do autor que citamos).
É por esta razão que a tradição ariana, procura através de uma série de etapas sucessivas, desenvolver na natureza interior do hindu determinados aspectos espiri-tuais e intelectuais que lhe permita compreender o sentido profundo dos Shâstras e qualificar-se para a Vida Divina. Por isso ainda hoje regula e distribui a sua vida em quatro ciclos (âshramas):
- Brâmachârî (o que caminha com Deus), período que dura em média, 16 anos, durante o qual ele estuda sob a direção de um preceptor;
- Grihastha (dono de casa): fase de 20 anos, em geral, em que se faz chefe de família, ganha e distribui os seus bens;
- Vanaprastha (ermitão): época em que renuncia ao mundo e se retira com a esposa para a floresta, como anacoreta, onde ficam, no máximo, 25 anos;
- Sannyâsi (o homem verdadeiramente pobre): etapa em que renuncia até mesmo à companhia da mulher e vai peregrinar, esmolando o seu parco alimento.
Ananda K. Coomarswany, no seu trabalho já mencionado, estuda este sistema, esclarecendo: “a raiz da palavra âshrama é shram, que significa: dar-se a trabalhos penosos; dela se deriva também, shramama, monge, religioso. São os equivalentes semânticos, exatos de askéo e asketés, asceta. É ainda interessante constatar na mesma ordem de ideias que o sânscrito kuchalatâ, o grego sofia e o hebraico hochma, tomaram o sentido de sabedoria ou prudência, no que concerne à ação em geral, mas primitivamente designavam habilidade no exercício dum oficio. Um âshrama é então uma fase da vida que deve ser considerada como uma oficina ou como a etapa de uma viagem ininterrupta e árdua. Os âshramas são permanência, estadas, não em lugares de repouso, mas em centros de atividade. O estribilho de uma antiga canção de peregrino é “continua a caminhar” (Charaiva-Charaiva). Tem também o significado mais restrito de lugar de retiro, ermida solitária. Além deste sentido particular, os qua-tro âshramas designam as fases sucessivas da vida do hindu.
O SILÊNCIO / “O que sabe, não fala. O que fala, não sabe” – Lao Tse.
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