Por Fonseca.R
Outro dia, num café da esquina, ouvi um homem desabafar com o amigo: “Nada na minha vida dá certo! Tudo que tento vira um desastre.” O amigo, solidário, concordava e ajudava a construir uma lista de culpados: o governo, a economia, a má sorte, os outros. Era uma conversa que já havia escutado dezenas de vezes, sempre com os mesmos personagens trocando de papel.
Há pessoas que colecionam fracassos como outros colecionam selos. A cada novo tropeço, suspiram aliviados: “Eu sabia! Comigo é sempre assim.” Como se a desventura fosse uma marca registrada, quase um título de nobreza às avessas. Passam a vida procurando culpados para suas mazelas, numa caça interminável que nunca leva a lugar algum.
Não adianta buscar culpados, nem soluções mágicas ou milagrosas. O mundo não conspira contra ninguém em particular. Somos todos insignificantes demais para merecer uma perseguição cósmica personalizada. A verdade, dura como pedra no sapato, é mais simples: quando tudo dá errado repetidamente, alguma coisa, em algum momento, estamos errando.
É uma lei antiga como o mundo: “o nada não produz nada”. Se a plantação não cresce, não é porque a terra tem má vontade ou porque os deuses estão de mau humor. É porque algo está errado no plantio, na semente, no cuidado. O fracasso constante é um sinal, um sintoma de que algo em nosso método precisa ser revisto.
Mas é infinitamente mais fácil procurar um culpado do que admitir que erramos ou ainda vimos errando. Culpar os outros é confortável, nos absolve, nos coloca no papel de vítimas injustiçadas. Reconhecer o erro próprio dói, fere o orgulho, obriga-nos a olhar no espelho sem filtros nem maquiagem.
A solução – se é que podemos chamar assim algo que exige tanto de nós – está na retrospecção. É preciso voltar no tempo, refazer o caminho, examinar cada decisão, cada atitude, cada momento em que escolhemos uma direção em vez de outra. É um trabalho de arqueólogo da própria existência, escavando camada por camada até encontrar o fóssil do erro original.
Quantos de nós temos coragem para essa jornada? Quantos conseguem dizer: “Errei aqui”, “Escolhi mal ali”, “Fui tolo naquele momento”? É mais fácil gritar contra o vento, xingar o destino, culpar a sociedade. Tudo, menos olhar para dentro e admitir que talvez – só talvez – o problema esteja conosco.
Identificada a causa ou as causas, a receita é simples: não as repetis. Eliminada a causa, eliminado o efeito. Parece matemática básica, mas na prática é cirurgia sem anestesia. Mudar padrões, abandonar vícios comportamentais, reconhecer que nossa forma de ver e agir no mundo precisa ser revista – isso exige uma coragem que poucos possuem.
Mas para encarar e reconhecer os erros é preciso ter coragem e determinação. Não a coragem dos heróis de cinema, que enfrentam dragões e salvam donzelas. A coragem mais difícil: a de se olhar no espelho sem piedade, sem desculpas, sem atenuantes. A determinação de quem sabe que a mudança começa sempre de dentro para fora.
O homem do café continuava sua ladainha quando saí. Provavelmente ainda está lá, listando culpados, esperando que a vida mude sem que ele precise mudar. É uma espera longa, às vezes eterna. Porque a vida, teimosa, só muda quando nós mudamos primeiro.
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