Prof. Leônidas Boutin
A crônica “O Homem do Sambaqui, de Leônidas Boutin, revela a pré-história do litoral paranaense por meio dos sambaquis – enormes depósitos de conchas. Ao descrever seus hábitos alimentares, rituais funerários e os mistérios de suas esculturas em pedra, o autor mescla dados arqueológicos e lendas populares, alertando para a destruição desses sítios e a importância de preservar a memória de nossos antepassados.
Sambaquis são grandes amontoados de conchas encontrados nas regiões costeiras por toda a América do Sul que guardam vestígios de antigas populações. No Brasil, eles foram numerosos, mas quase todos destruídos para a fabricação de cal e no revestimento de caminhos e estradas. Perdia-se assim grande parte das informações de nossa pré-história, pois cada sambaqui uma espécie de livro fechado que os arqueólogos vão lendo; na medida em que escavam e destroem sua estrutura estratigráfica.
Nos arredores de Paranaguá, tanto no continente quanto em ilhas da baía, existiram muitos sambaquis (ou concheiros).
Alguns poucos foram preservados por causa de suas localizações de difícil acesso. Alguns são muito antigos e outros mais recentes. As datações feitas pelo método Rádio Carbono 14 indicam idades que variam de seis mil a dois mil anos A. C.
O homem (ou raça) do sambaqui alimentava-se basicamente do conteúdo das conchas berbigão, molusco acéfalo cardiáceo, abundante nos extensos mangues que, outrora alcançavam a Serra do Mar. Áreas essas agora cobertas pela Mata Atlântica, o que explica a presença de alguns sambaquis muito distantes da orla marítima
Os sambaquis foram sendo construídos, de geração em geração, de maneira não intencional. Resultam de restos de cozinha, conchas descartadas pelas populações pré-históricas. Ali viviam e ali enterravam seus mortos. O grande número de sambaquis sugere povo numeroso no passado pré-histórico. Seus esqueletos foram preservados, conservados pelo calcário das conchas marinhas Aquela raça vigorosa teria desaparecido completamente pela miscigenação com a raça tupi-guarani, que teria chegado, possivelmente da região do Paraguai, num período da proto-história. Os tupi-guaranis introduziram entre o povo dos sambaquis, novas técnicas, inclusive a da cerâmica.
Outro mistério dos sambaquis, são os zoolitos, isto é, esculturas em basalto representando animais (peixes, baleias). São rudes objetos de arte pré-histórica. Guardam segredos de tempos imemoriais.
O homem do sambaqui era pescador e caçador porque naqueles sítios arqueológicos encontram-se, além de suas ossadas, também ossos de peixes e outros animais, bem como anzóis e pontas de lança e flecha feitas de ossos pneumáticos de aves.
Os sambaquis são agora (o que restou deles) protegidos por lei federal.
Objetos autênticos retirados de alguns sambaquis do litoral do Paraná, podem ser vistos no Museu de Arqueologia e Artes Populares (atual Museu de Arqueologia e Etnologia), de Paranaguá, instalado no antigo e histórico edifício Colégio dos Jesuítas.
Os caiçaras costumam afirmar que sambaquis resultam do Dilúvio universal. Os esqueletos humanos ali contidos seriam dos pecadores castigados por Deus.
Boutin, Leônidas, 1925 Histórias Paranaenses / Leonidas Boutin – Curitiba: L. Boutin 2003O





