História, Memória e Patrimônio

Rua das Mortes

A alcunha nasceu de um botequim que existiu onde hoje se encontra o prédio n.º 20, mais ou menos

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No segundo quartel do século passado, e por longos anos, a atual rua Pecego Júnior — naquele estreito e antigo corredor entre a Conselheiro Barradas e a Silva Lemos — carregou um nome que parecia estremecer a própria respiração da vila: Rua das Mortes. Bastava pronunciá-lo para que um arrepio, quase imperceptível, percorresse o ar, como se o passado ali soprasse um aviso.

A alcunha nasceu de um botequim que existiu onde hoje se encontra o prédio n.º 20, mais ou menos. Lugar de má fama, espécie de antro luminoso apenas o suficiente para atrair marujos errantes, mineiros de fala dura e mulheres que a vida empurrou para os desvãos da noite. Foi ali que, certa feita, em 1829, um homem perdeu a vida em violento conflito. Mas o plural — “Mortes” — diz mais do que qualquer registro: sugere que aquela tragédia foi apenas uma entre muitas. Naquele reduto de tavernas esfumaçadas, onde a aguardente escorria com a mesma facilidade que a honra, era comum que o romper da madrugada encontrasse corpos estendidos e sangue recente manchando a terra batida. Ali mesmo assassinaram, certa noite, o mestre de velas da corveta Santa Cruz, episódio que arrastou outros à mesma sina. Por isso, gente prudente e receosa evitava passar pela famigerada rua depois que o Sol declinava.

Ao redor desse cenário sombrio erguiam-se velhos casarões de taipa, de janelas estreitas e paredes cansadas, entre os quais duas ou três tavernas davam abrigo a um universo próprio: marujos com sal impregnado na pele, escravos exaustos do labor diário, mulheres de vida tumultuada — toda uma humanidade marginal que compunha a ralé daquela época dura, violenta e, a seu modo, fascinante.

Era por ali que se chegava ao arsenal, ao bulício incessante do estaleiro, às oficinas em que os mesteirais — quase todos moradores do pobre bairro que estremava a vila e que recebia o expressivo nome de Rua do Fogo — encontravam trabalho, refúgio, amizade e até algum consolo para os dias de penúria.

No coração desse mundo pulsava a taverna do Saloio. Português de gênio ruim, mas dotado de um magnetismo que prendia o olhar, sabia como poucos manter a freguesia rendida. Entre goles de aguardente e o fumo denso que serpenteava das lamparinas, narrava histórias arrancadas do sal das ondas: brigas sangrentas em portos do Velho Mundo, fugas dignas de lenda, prisões úmidas onde a claridade se recusava a entrar, e até o dia em que quase se viu pendendo na ponta de uma corda, na forca de Plymouth.

À noite, quando o candeeiro de azeite de peixe tremulava e projetava nas paredes sombras gigantescas — criaturas moldadas pela fantasia dos presentes — o Saloio, apoiado no balcão gasto pelo tempo e pelo cotovelo dos homens, desfiava suas memórias como quem paga tributo aos próprios fantasmas. Os frequentadores, sentados em bancos rústicos ou encostados nas paredes, ouviam em silêncio reverente, e ele lhes servia copos de aguardente com a precisão de um sacerdote do vício. De vez em quando, exibia, quase com orgulho, sua fama de facínora, recado silencioso a qualquer desavisado que cogitasse provocá-lo.

Às dez horas, quando o sino da Cadeia dobrava lento, marcando o toque de recolher, a taverna se dissolvia como névoa cortada pela primeira luz. 

O Saloio, recolhendo a féria com tranquilidade conhecedora dos humores da noite, fechava as portas antes que a ronda de milicianos viesse perturbar-lhe a paz, ou provocar o infortúnio de uma nova história para a Rua das Mortes.


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Hamilton Ferreira Sampaio Júnior

Hamilton Ferreira Sampaio Júnior é pesquisador de história e genealogia, formado em Teologia e licenciado em História. Faz parte da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia e do Departamento Cultural do Club Litterario de Paranaguá, sendo também sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá. Atua em projetos históricos de resgate de memória, livros comemorativos e biografias, além de projetos museológicos e pesquisas documentais para segunda cidadania. Seu mais recente trabalho foi o livro comemorativo dos 100 anos da Associação Comercial Agrícola e Industrial de Paranaguá.

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