Quando o jovem Dr. Annibal Ribeiro Filho chegou a Paranaguá, trazia na bagagem os ensinamentos das cátedras e o brilho de quem conhecera Madame Curie em seus tempos de estudante no Rio de Janeiro. Tinha na mente a medicina científica — exata, analítica, moderna. Mas, ao abrir a porta da Sala dos Bancos da Santa Casa, encontrou um outro mundo: uma fila de caboclos com fé nos chás, rezas e benzimentos.
Falavam de dores estranhas: “pontadas no sangradouro”, “mal de engasgo”, “mau jeito no garrão”. O doutor anotava, curioso, aprendendo aquela língua de sofrimento e sabedoria. Ali, a ciência precisava dialogar com o folclore.
Nas décadas de 1920 e 30, faltavam remédios e recursos. O caboclo buscava no mato o que a botica não tinha: folhas de boldo para o fígado, banha de galinha para o reumatismo, chá de guaco para tosse, sementes de Santa Maria contra vermes. E quando o mal era grave, havia até quem torrasse um sapo vivo num pote de barro, reduzindo-o a pó para polvilhar feridas — último recurso de desespero e fé.
“Era a medicina das cátedras se defrontando com a medicina das crenças”, recordaria depois o doutor. Aprendeu, então, que a fé também cura, e que muitas vezes o alívio vinha da confiança — no médico, no remédio, ou na reza.
As professoras e parteiras sabiam das “garrafadas do Natureza do Quati”, poção afrodisíaca que, diziam, multiplicava os filhos das famílias de Paranaguá. As mulheres, em tempos de parto, colocavam o chapéu do marido na cabeça e o faziam correr em volta do rancho, enquanto a vela tremia e Santa Margarida era invocada para ajudar “o companheiro” a nascer.
Para a maleita, enterravam mechas de cabelo na bananeira virada ao poente; para o mau-olhado, colares de alho e sementes de sapatina protegiam as crianças; e nos bolsos, os patuás costurados com orações guardavam a esperança contra o invisível.
O doutor, aos poucos, percebeu que precisava compreender, não combater. Passou a ouvir, a perguntar, a registrar termos e costumes. Entre a folha e a fé, construiu pontes.
“Foi assim que aprendi com meus pacientes a curar suas enfermidades”, escreveria anos depois.
Nos relatórios e conferências, especialmente no Dia do Folclore de 1974, Dr. Annibal celebrava essa sabedoria antiga. Citava a professora Vera Beatriz Langowiski, que dizia:
“Desprotegido de recursos médicos, o caboclo encontrava no ambiente os meios de sobreviver — mais pela resistência do corpo do que pelo poder dos remédios.”
De certa forma, aquele médico e seus pacientes se curavam juntos. Ele trazia a ciência; eles, a crença de que cada erva, reza e gota de suor podiam despertar a vida.
E assim, entre purgativos de sene e suadouros de gengibre, entre o pó de sapo e o azeite doce, nasceu uma medicina mestiça: meio empírica, meio espiritual, inteiramente humana.
Hoje, nas casas antigas e nas memórias do litoral, ainda se fala das simpatias, dos chás e das garrafadas. E, talvez, em algum canto, o espírito do doutor sorria — não por ver a ciência triunfar, mas por saber que ela aprendeu, finalmente, a caminhar de mãos dadas com a fé do povo.
Baseado nos manuscritos Medicina Folclórica de 1974.





