Por quase dois séculos o amanhecer em Paranaguá foi marcado pelo rangido compassado de uma carroça singela e pelo pregão que ecoava pelas ruas de chão batido: “Ói a água!”. Assim se anunciavam os aguadeiros, personagens indispensáveis da vida cotidiana, responsáveis por levar a água da Fonte Velha até as residências, mediante o pagamento de um tostão — cem réis — por cada pequeno barril.
A carroça, simples e funcional, transportava um barril deitado, munido de torneira. Conduzida por um burro manso, percorria a antiga vila e, depois, a cidade em crescimento, parando diante de portas já conhecidas. Não era preciso chamar: os animais, habituados à rotina, detinham-se sozinhos, como se também guardassem na memória o traçado invisível das ruas.
O aguadeiro descia, abria a torneira, e a água — recurso precioso — escorria para os recipientes domésticos, garantindo a sobrevivência das famílias. Nesse gesto cotidiano havia algo de simples e quase ritualístico, repetido dia após dia, sustentando a vida urbana antes da chegada dos encanamentos. Paranaguá mantinha-se viva a partir dessa água.

Em Paranaguá, nem todos eram escravizados: alguns aguadeiros eram homens livres. Ainda assim, livres ou cativos, todos exerciam papel fundamental numa época em que a água potável era escassa e valiosa. Sem eles, a cidade não funcionava. Embora algumas casas possuíssem poços, fontes próprias ou utilizassem mão de obra escravizada para buscar água em chafarizes, o aguadeiro permanecia essencial, sobretudo para aqueles que viviam distantes dessas alternativas.
Uma notícia publicada no jornal A República, em 14 de fevereiro de 1906, lança luz sobre essa realidade. O texto relata um suposto atentado contra o coronel Joaquim Soares Rodrigues, atribuído ao aguadeiro Thiago Damasio de Freitas, conhecido como Valladares. Em depoimento, Freitas negou a acusação e afirmou ser perseguido pelo coronel, que teria solicitado a conhecidos que deixassem de comprar água dele. Declarou ainda que o procurou para pedir que cessasse a perseguição, pois era pobre e sustentava mulher e filhos. Relatou também ter afirmado que “o tempo do cativeiro havia terminado”, o que teria provocado a confusão que resultou em sua prisão. Questionado, atribuiu a perseguição a divergências políticas.
Em 1914, Paranaguá viveu um marco com a inauguração da rede de água e esgoto, promovida pelo então prefeito Dr. Caetano Munhoz da Rocha.
A partir desse momento, a Fonte Velha deixou de receber os aguadeiros, passando a atender principalmente os mais humildes, que ainda não dispunham de água encanada em seus lares.
Hoje, ao lembrarmos o chamado “Ói a água!”, somos convidados a reconhecer que a história de Paranaguá também foi construída por esses gestos discretos e essenciais, que sustentaram a cidade gota a gota — uma memória que ainda ecoa no presente.
Referência
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 82.





