Agosto chegou.
E, com ele, mais uma vez o patrimônio histórico ganha espaço nos discursos, nas fotografias, nas redes sociais e nas solenidades.
No dia 17 de agosto, celebramos o Dia Nacional do Patrimônio Histórico, em homenagem ao nascimento de Rodrigo Melo Franco de Andrade, figura fundamental para as políticas de preservação no Brasil.
É uma data importante.
Mas talvez seja também uma data incômoda.
Porque, em 2026, precisamos perguntar: o que realmente temos feito pelo nosso patrimônio?
Nas cidades históricas do Paraná, convivemos com uma estranha contradição. Temos orgulho de nossas igrejas centenárias, estações ferroviárias, sobrados, praças, mercados e monumentos. Suas imagens aparecem em materiais turísticos, discursos oficiais e campanhas publicitárias.
Mas basta virar a esquina.
Ali pode estar um telhado desabando. Mais adiante, uma fachada descaracterizada, um casarão abandonado ou uma estação esperando há anos por socorro.

É quando precisamos compreender:
Proteger o patrimônio não é torcida, é atitude.
Não adianta torcer para que alguém restaure. Não adianta lamentar depois que caiu. Muito menos publicar uma fotografia antiga dizendo “como nossa cidade era bonita”, enquanto permanecemos indiferentes diante daquilo que ainda pode ser salvo.
Preservar exige inventariar, fiscalizar, pesquisar, documentar, educar, restaurar e, principalmente, prevenir.
Exige compreender que desenvolvimento não pode ser sinônimo de destruição.
Uma cidade histórica não precisa escolher entre passado e futuro.
Pode e deve caminhar com ambos.
Prédios antigos podem receber novos usos, gerar turismo, cultura, trabalho e renda. Podem abrigar museus, bibliotecas, cafés, hotéis, restaurantes e centros culturais.
O que não podemos aceitar é a ideia de que tudo aquilo que é antigo precisa desaparecer para que algo “moderno” ocupe seu lugar.
Concreto podemos comprar.
Vidro podemos substituir.
Prédios podemos construir aos milhares.
História, não.
Quando um edifício histórico desaparece, não perdemos apenas paredes, telhas e janelas. Perdemos referências, paisagem, identidade e parte daquilo que explica quem fomos e como chegamos até aqui.
Por isso, neste 17 de agosto, talvez devêssemos produzir menos discursos e assumir mais compromissos.
Que cada cidade olhe para seus prédios ameaçados.
Que cada gestor conheça aquilo que administra.
Que cada proprietário compreenda o valor daquilo que possui.
E que cada cidadão entenda que o patrimônio de sua cidade também lhe pertence.
Daqui a cem anos, alguém caminhará pelas mesmas ruas que percorremos hoje.
O que deixaremos para essa pessoa encontrar?
Fotografias de prédios que existiram?
Ou os próprios prédios contando suas histórias?
O patrimônio precisa de gente disposta a defendê-lo enquanto ainda está de pé.
Porque, depois que o último tijolo cair, todos poderão lamentar.
Mas preservar será tarde demais.
Proteger o patrimônio não é torcida, é atitude.





