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Crônicas

Os olhos

Fui apresentada a Margaret Keane, não pessoalmente como era de minha vontade, mas por meio do maravilhoso filme “Grandes olhos”, dirigido por Tim Burton.

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Fui apresentada a Margaret Keane, não pessoalmente como era de minha vontade, mas por meio do maravilhoso filme “Grandes olhos”, dirigido por Tim Burton.

Margaret pinta quadros, cuja característica é retratar personagens com olhos enormes e desproporcionais ao rosto. É a sua marca, o seu estilo. Ganhou fama e dinheiro porque seu marido, Walter Keane, à época, vendia os quadros como se fossem obras feitas por ele. Apossou-se dos créditos afirmando que ninguém compraria um quadro feito por uma mulher. Não bastasse, ameaçou-a de morte caso revelasse o segredo. Estou falando dos anos de 1955 a 1965, em que Margaret e Walter foram casados.

Alguma semelhança com os dias atuais? Altos números de feminicídios e violência contra a mulher, infelizmente, comprovam que não.

A pintora afirmava que “os olhos são as janelas da alma”. Não pude deixar de usar essa frase como reflexão nesse momento em que estamos nos habituando a utilizar máscaras, diariamente, para nos proteger da pandemia do vírus.

Sobra muito pouco do nosso rosto à mostra. A boca sempre coberta, os lábios cerrados, dentes que não se expõem em sorrisos, expressões faciais sem a sua totalidade. Cabem aos olhos falar, suplicar, pedir, emocionar. São eles que estão atentos ao que acontece. São eles que estão nos revelando e servindo de protagonistas. Não que já não tivessem o seu encanto e magnetismo, mas costumavam dividir as manifestações com o rosto todo. Agora, reinam absolutos. Arqueiam as sobrancelhas, abrem-se numa expressão de susto, murcham de tristeza, lacrimejam, vertem lágrimas, desviam do que não querem presenciar. Está tudo ali, repare.

Nunca os olhos falaram tanto, mesmo usando o silêncio. Irritam-se facilmente com quem não respeita a distância de dois metros, reverberam o medo, a insegurança, o pavor, a desolação, a fé, o carinho, a ausência, a solidão. Alegram-se, agitam-se, entristecem, repousam o olhar no teto, fitam a paisagem, perdem-se.

Talvez eu não soubesse da existência de Margaret, não fosse a quarentena, que tem feito com que eu me entretenha com a arte para enfrentar os dias difíceis. Neste isolamento, meus olhos buscam um jeito de olhar a vida sem sair de casa.

Então, hoje trago para a coluna um filme baseado em fatos reais e que tem, na sua trilha sonora, duas músicas da Lana Del Rey, que são “Big eyes” e “I can fly”, compostas para a obra. Estou indicando o filme e querendo que você ouça as músicas, porque acredito que “A arte nos salva dos dias iguais” (frase de minha autoria).

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