Crônicas

O circo chegou

Por: Kátia Muniz

Kátia Muniz

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O carro com o alto-falante instalado no teto anuncia que o circo está na cidade. A propaganda informa os dias das apresentações, os horários e as atrações que fazem parte do espetáculo. Tudo de maneira muito envolvente para convencer o público a prestigiar o evento.

É bacana saber que algumas coisas não desapareceram, mesmo com todo o avanço tecnológico. O circo é uma delas: resiste ao tempo, embora, naturalmente, tenha precisado se reinventar e acompanhar as novidades para não ficar para trás.

Nesse, especificamente, ao adentrar as instalações, não se avista o picadeiro, mas sim uma praça de alimentação, estrategicamente pensada para conquistar o estômago antes mesmo de qualquer entretenimento. Só então chega-se às cadeiras dispostas sobre uma estrutura com diferentes níveis de altura; ou seja, quem está na frente não atrapalha a visão de quem se encontra atrás. 

Foi-se o tempo em que os artistas apareciam apenas para executar seus números no picadeiro. Enquanto a apresentação não começa, eles circulam pela plateia oferecendo pastéis, espetinhos de morango com chocolate, brinquedos, balões coloridos, bolas e uma infinidade de bastões e espadas com luzes de LED. A criançada vai ao delírio, e o bolso dos pais, à loucura.

A sessão tem início e, aos poucos, surgem malabaristas, trapezistas, acrobatas, mágicos, palhaços, equilibristas e também um intervalo de dez minutos destinados à venda de produtos voltados especialmente ao público infantil. 

Mesmo sabendo praticamente tudo o que vai acontecer, os adultos comparecem. Agora, levam os filhos, os netos, os sobrinhos ou, quem sabe, reservam um espaço na agenda cheia de responsabilidades para conduzirem a si mesmos de volta ao universo lúdico.  

Durante duas horas, é possível esquecer o celular, dar um tempo às telas e viver momentos em família que ficarão eternizados na memória. 

Acompanhamos tudo com os olhos vidrados nos artistas e na dinâmica das atrações, que se revezam no picadeiro sem permitir, em hipótese alguma, que o tédio se instale.

A plateia bate palmas, obedece aos comandos de quem conduz o show, ri alto, se diverte e, naquele curto intervalo de tempo, resgata a criança que ainda mora em algum cantinho bonito dentro de cada um. 

O ingresso não apenas nos dá o direito de assistir ao espetáculo, mas também devolve a infância, desperta lembranças afetuosas de uma época em que a gente ria frouxo e encontrava encanto na simplicidade da vida, enquanto o coração ainda reconhece onde deseja estar.


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Kátia Muniz

Kátia Muniz é formada em Letras e pós-graduada em Produção de Textos, pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá (hoje, UNESPAR). Foi colaboradora do Jornal Diário do Comércio por sete anos, com uma coluna quinzenal de crônicas do cotidiano. Nos anos de 2014, 2015 e 2016 foi premiada em concursos literários realizados na cidade de Paranaguá. Em outubro de 2018, foi homenageada pelo Rotary Club de Paranaguá Rocio pela contribuição cultural na criação de crônicas.

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