Connect with us

Centro de Letras

A Lavanderia

A Prefeitura esperou o final do processo de aterramento da Praça João Gualberto para mexer com a antiga lavanderia próxima aos trilhos

Publicado

em

A Prefeitura esperou o final do processo de aterramento da Praça João Gualberto para mexer com a antiga lavanderia próxima aos trilhos. Um dia após o jornal local informar que o aterro estaria pronto em poucas semanas, a lavanderia foi demolida. Analisando o teor da notícia, compreendemos como ocorria o choque entre a idealizada Paranaguá moderna e a ultrapassada Paranaguá velha. Segundo a pequena nota ao pé da primeira página, “O velho pardieiro que servia de lavanderia pública” e era abastecido “pelo remanescente da fonte nova” estava demolido. Afinal, “O aterro da praça (…) não podia permittir que continuasse em pé aquelle edifficio feio” que “durante dezenas de annos (serviu) para lavagem da sujeira de muita gente”. Finalizava em tom comemorativo: “Foi tudo abaixo, e já se não permitte mais o ajuntamento das lavadeiras, nem as cordas e cercas cobertas de roupa lavada, de camisas brancas ao ar” (uma fotografia realmente mostra dezenas de peças de roupas brancas penduradas nas cercas dos trilhos, evidenciando ser uma prática das lavadeiras; além disso, em uma imagem da própria Lavanderia – que não passava um telhado sobre oito grossas colunas e uma parede baixa com torneiras – também vemos algumas roupas estiradas no gramado). As lavadeiras “botaram a boca no mundo inteiro, e as pragas surtiram, calamitosas sobre toda essa gente que se lembra do progresso”, afirmou o jornal no dia seguinte. Obviamente, complicava lavar roupa em casa, sem esgotos, admitia a matéria, mas o progresso é assim e sempre acaba incomodando alguém. Talvez as lavadeiras não entendessem o “mal à esthetica e moralidade” de estender roupas à mostra dos passageiros do trem. Demolir era “um mal necessário” e o interesse público estaria acima de “conveniências individuais”. Os hábitos deveriam mudar.     

Por Alexandre Camargo de Sant’Ana