Outro dia, entre um cafezinho e outro, descobri que a vida se resume a três verbos malditos: posso, devo e quero. E o pior, esses três sujeitos raramente andam de mãos dadas. Vivem brigando entre si, cada um puxando a brasa para sua sardinha existencial.
Vejamos o caso clássico do sujeito que posso, devo, mas não quero. É o cidadão na academia às seis da manhã, com cara de velório, pedalando numa bicicleta que não sai do lugar. Deve pedalar, porque o médico disse: ou pedala ou vira estatística? Deve, mas quer. pedalar? Nem que a vaca tussa. Preferiria estar na cama sonhando com pastéis de feira. Mas lá está ele, mártir do dever, suando a camisa que acabou de comprar justamente para suar.
Já o posso, quero, mas não devo é primo-irmão da tentação. É aquele terceiro pedaço de torta de chocolate olhando para você na geladeira às onze da noite. Você pode? Claro, é sua geladeira, sua torta, sua consciência. Quer? Com uma vontade que dá até aperto no peito. Deve? Ah, meu amigo, aí que mora o perigo. A balança amanhã vai ter uma conversinha séria com você. Mas quem nunca pecou que atire a primeira pedra.
O quero, devo, mas não posso é a tragédia brasileira por excelência. É querer dar educação de primeira aos filhos, dever dar educação de primeira aos filhos, mas o salário só dá para a educação de segunda, quando muito. É a vontade de ajudar o vizinho que passou aperto, o dever moral pulsando nas veias, mas a conta de luz vencendo amanhã. Essa variação do trio infernal transforma gente boa em gente amargurada.
Tem ainda o devo, posso, mas não quero, que é o sujeito que tem que ir no casamento do primo da cunhada. Deve ir, porque família é sagrada e etc. Pode ir, está livre no sábado. Quer ir? Preferia enfrentar um canal de dentista sem anestesia. Mas vai, porque somos criaturas sociais condenadas a sorrir em fotos com gente que mal conhecemos.
O devo, quero, mas não posso merece menção especial. É a frustração destilada em forma verbal. É querer e dever viajar nas férias com a família, mas a grana foi toda para consertar o carro que insistiu em quebrar justamente uma semana antes. É o aposentado que deve e quer descansar, mas não pode, porque a pensão não cobre nem a farmácia. Esse é o que dói na alma.
E por fim, chegamos ao Nirvana, ao estado de graça, ao olimpo da paz de espírito: o não posso, não devo e não quero. É quando alguém te convida para um churrasco às sete da manhã de domingo. Não pode porque tem compromisso. Não deve porque faz mal à saúde. Não quer porque é louco. Nesse caso raro, os três mosqueteiros finalmente concordam, e você dorme até mais tarde com a consciência limpa.
O problema é que passamos a vida inteira nesse cabo de guerra triplo, tentando equilibrar o que podemos, devemos e queremos como malabarista em monociclo. E quando finalmente conseguimos alinhar os três – posso, devo E quero -, descobrimos que esquecemos onde pusemos as chaves de casa.
Talvez a sabedoria esteja em aceitar que essa santíssima Trindade nunca vai entrar em acordo total. A vida não é feita de momentos perfeitos onde tudo se alinha, mas desses pequenos desajustes que nos fazem humanos. Às vezes fazemos o que não queremos, outras abrimos mão do que queremos, e de vez em quando, com sorte, conseguimos fazer aquilo que realmente importa.
No fim das contas, administrar o posso-devo-quero é a arte de ser adulto: uma negociação permanente consigo mesmo, onde o acordo final raramente agrada a todos os envolvidos, mas pelo menos te deixa olhar no espelho sem vontade de quebrar o vidro.
E se você chegou até aqui esperando uma solução mágica, tenho más notícias: não existe. Mas posso te oferecer um conselho – devo te oferecer, inclusive. Quero? Bom, isso já é outra história.
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Grande Oriente do Paraná
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