Paranaguá 377 anos

Lendas folclóricas fazem parte da história popular de Paranaguá

Folha do Litoral destaca algumas destas narrativas transmitidas de geração em geração

paranagua 377 anos lendas de paranagua

As lendas são parte da tradição de uma cidade, transmitidas de geração em geração. Em Paranaguá, cidade histórica, diversas lendas e contos fazem parte da identidade local, entre elas estão a lenda da Caveirinha e a lenda do túnel que ligaria a Fontinha ao bairro do Emboguaçu. A Folha do Litoral News conversou com Alessandro Pires Staniscia, orador do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá (IHGP), que explicou e detalhou alguns desses acontecimentos que fazem parte da história da cidade.

Lenda da Caveirinha

Conta-se que, durante o período da escravidão, a Fonte Velha de Paranaguá, conhecida atualmente como Fontinha, era o principal ponto de abastecimento de água potável. Na época, os escravizados eram obrigados a buscar água ali para levar aos seus senhores.

Quem explica é Alessandro Staniscia, orador do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá (IHGP). Segundo ele, um escravizado muito tagarela, ao buscar água como de costume no final da tarde, já quase anoitecendo, deparou-se com uma caveira amarrada a uma figueira.

Brincando e zombando da caveira, ele perguntou:

— Quem te matou, caveirinha?

E a caveirinha respondeu:

— Quem me matou foi a língua.

Assustado e incrédulo, ele repetiu a pergunta:

— Quem te matou, caveirinha?

E novamente ouviu a resposta:

— Quem me matou foi a língua.

“Esse escravo voltou correndo para a fazenda com o balde na cabeça e contou. Reuniu todos os escravos ali na senzala e de repente o senhor do engenho veio dizendo que ele estava tumultuando, que ele era tagarela, que ele era fofoqueiro e o fez um desafiou dizendo que no dia seguinte eles voltariam a Fontinha e que se a caveira não falasse, ele iria levar chibatadas até a sua execução”, explica Staniscia.

No dia seguinte, assustados e com medo de buscar água na fonte, reuniram-se todos os escravos no local. E, portanto, na frente do seu senhor e na frente de todos os escravos, ele implorou:

– Caveirinha, me conte quem te matou?

Foi o silêncio sepulcral.

E ele de novo:

– Caveirinha, quem te matou?

E de novo, mais uma vez o silêncio.

Disse o seu senhor:

– Se ela não falar, você vai levar sua pena

E, mais uma vez, em desespero, aquele escravo tagarela implorou que a caveirinha falasse. Mas ela permaneceu em silêncio. Logo em seguida, ele foi açoitado ali mesmo, diante da figueira. Quando todos os demais escravizados foram embora, o homem, já sem forças, morreu desfalecido. Seu corpo foi então pendurado na mesma figueira, para servir como exemplo para os demais.

Mas, para a pressa e desespero daquele escravo, quando todos já haviam ido embora, a caveirinha sussurrou:

– Não te disse, quem me matou foi a língua.

Um “túnel” que liga a Fontinha de Paranaguá ao bairro Emboguaçu?

Muito se fala em Paranaguá sobre a existência de um túnel que liga a Fontinha a um bairro da cidade, o Emboguaçu. Há em Paranaguá um grande prédio, originalmente construído para ser o colégio dos jesuítas, com três andares, que hoje abriga o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da UFPR. Na época, algo extremamente raro para o Brasil nos séculos XVII e XVIII.

Mesmo sem ter sido oficialmente inaugurado como colégio, o prédio mostrava a importância econômica, política e estratégica de Paranaguá naquela época. Entretanto, a inauguração não ocorreu porque os jesuítas foram expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal (em 1759), precisando deixar a cidade de forma apressada, os quais estavam em grande número em Paranaguá, justamente para acompanhar a obra. Com a expulsão, abandonaram o projeto e o prédio nunca foi usado como colégio.

E por isso, pode-se acreditar na existência de um túnel subterrâneo secreto saindo dali (Rua João Estevão, próximo a Igreja de São Benedito) até o bairro do Emboguaçu, e que poderia ter sido utilizado para fuga dos Jesuítas na época.

paranagua 377 anos lendas de paranagua2
Alessandro Staniscia, orador do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá

“É uma lenda, acredita quem quer, mas isso passa através da crença popular, através de gerações. A lenda é uma soma dessas crenças, desses valores e dessas experiências de vida, essas pessoas viveram o regime escravocrata que assolou o nosso país, o regime da colonização portuguesa, recebendo todas essas influências desde o nosso calçamento do Petipavê, da nossa colonização e das influências religiosas de Paranaguá”, ressalta Alessandro Staniscia.

Segundo ele, Paranaguá existe muito antes do Paraná existir. A cidade era um pedaço rico das experiências do Brasil. Gabriel de Lara, quando mandou informações para o reino de Portugal, já dizia que Paranaguá, antes de ser cidade, em 1648, já se tratava de uma terra próspera e organizada, com a notícia do ouro.

“Essas crenças e essas lendas que são transmitidas através de gerações só demonstram a riqueza cultural, histórica, geográfica que Paranaguá atravessou e atravessa ao longo dos séculos. Que Paranaguá possa olhar para o seu passado, servindo como referência para o presente e para o futuro. Paranaguá é uma cidade de terra de pessoas valiosas, criativas, capazes, competentes e tem tudo pronto. Falta ter um carinho, um cuidado maior com o tesouro que nós já temos disponíveis e vistos aqui, seja na área cultural, na área geográfica com o porto, da sabedoria da sua gente, da capacidade de sua gente. Quantas pessoas de Paranaguá se destacam no país e no mundo, fruto da sua vivência, da sua inteligência e da sua capacidade. Basta reconhecermos um pouquinho mais a condição que nós temos aqui enquanto beleza natural, geográfica e pela força da sua gente”, finaliza.

paranagua 377 anos banner rodape


Avatar de Elano Squenine

Elano Squenine

Estudante de Jornalismo desde 2025 pela Uningá, Elano Squenine atuou como repórter, pauteiro e produtor em uma emissora de rádio. Atualmente, ele exerce suas funções na Folha do Litoral News como coprodutor (MEI).

Fique bem informado!
Siga a Folha do Litoral News no Google Notícias.

Você também poderá gostar