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Entrevista

Zeca da Rabeca: 50 anos dedicados ao fandango

Mestre ensina a confeccionar o instrumento característico cultural

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José Martins Filho, mais conhecido como Zeca da Rabeca, nasceu em Guaraqueçaba em 1951. Passou a morar na Ilha dos Valadares em 1963, juntamente com a família, e foi naquele tempo que se envolveu com o fandango. O lampião a querosene clareava o salões, homens e mulheres que trabalhavam a semana toda iam bailar como recompensa após uma semana puxada de trabalho. Cinquenta anos se passaram e os modos de vida também, mas o fandango continua. Deixou de ser um baile de cotidiano para ser uma atração cultural e turística. Também chamado de ‘Mestre Zeca da rabeca’, José Martins Filho é um autêntico músico envolvido nas raízes do folclore caiçara. Em 2013, juntamente com Aorélio Domingues, foi premiado pelo Ministério da Cultura/Edital das Culturas Populares prêmio Mazzaropi, pelos trabalhos de salvaguarda e de repasse das manifestações tradicionais.  Hoje, com o reconhecimento, ele não precisa mais trabalhar como pedreiro e vive do fandango. É sobre isso que ele nos conta nesta entrevista. Confira:

 

Folha do Litoral News: Como foi a sua infância em Guaraqueçaba?

Zeca da Rabeca:  Nasci em Guaraqueçaba, o lugar é o Salto do Morato. Minha infância foi boa como de todas as crianças, muito ligada à natureza. Vivi lá até os 12 anos de idade e depois vim para Paranaguá com minha família e fomos morar na Ilha dos Valadares, onde estou até hoje.

 

Folha do Litoral News: Foi no Valadares que o senhor entrou em contato com o fandango?

Zeca da Rabeca: Quando cheguei na Ilha dos Valadares, vi que existiam muitos violeiros, muito mais que hoje. Parecia que todos os homens tocavam viola e dançavam fandango. As pessoas trabalhavam pra se divertir no fim de semana, e assim em forma de mutirão os bailes aconteciam. Todo mundo participava. E desde cedo aprendi a dançar fandango e mais tarde veio a parte da rabeca.

 

Folha do Litoral News: Como o senhor aprendeu a confeccionar esse instrumento?  

Zeca da Rabeca: Meu pai era carpinteiro naval e fazia tudo que fosse de madeira. E eu ficava olhando ele trabalhar e aprendi rápido. Ele fazia barcos e violas e assim comecei. A madeira era um pouco diferente de hoje e os instrumentos para fazer, também. A gente fazia com madeira do mato, a madeira branca. Era muito usada a caroba, porque era mais forte. A gente usava no arco o fio de cipó e no instrumento o fio de cavaquinho. Hoje é o fio de aço, e na parte da madeira usamos mais a caixeta. A rabeca é um instrumento que não tem ponto, fazemos a marcação no braço dela para os alunos saberem tocar. No meu tempo, a gente descobria o ponto pela curiosidade e pela vontade de aprender. Graças ao meu pai que hoje eu sei fazer rabeca e outros instrumentos.

 

Folha do Litoral News: Como eram os bailes de fandango antigamente?

Zeca da Rabeca: Eram em forma de mutirão. Muita gente participava. O baile maior era no Rio dos Patos, perto de Cananeia. Não era como hoje em forma de festa, era uma coisa normal para descansar no fim de semana. Uns dançavam e outros tocavam. A juventude toda participava. Tinha que trabalhar para entrar no baile. Quem tinha 15 anos ajudava os mais velhos na plantação e na colheita para poder participar do baile no fim de semana. Quem não trabalhava não participava do baile. Era como uma recompensa. Não tinha luz elétrica, era a querosene.

 

Folha do Litoral News: É fácil aprender a tocar rabeca?

Zeca da Rabeca: Quem olha acha que é fácil, mas quando pega na rabeca e começa a tocar logo nota que não é. É um instrumento muito difícil porque para chegar num ponto de a pessoa tocar num baile tem que estar muito bem preparada porque a rabeca é o instrumento que acompanha todos os instrumentos. Cada violeiro toca de um jeito e o rabequeiro precisa saber acompanhar todos, pois é o som que mais aparece na hora do baile. Hoje em dia temos três pessoas na cidade que sabem tocar rabeca, isso é muito pouco. Eu acho que no futuro  isso vai ser uma dificuldade, por isso estamos dando aula para os jovens para que mais e mais pessoas aprendam. Num baile o único que não pode falhar é o rabequeiro porque pode desandar todo o grupo. 

 

Folha do Litoral News: Hoje com o reconhecimento do fandango, a vida ficou mais fácil?

Zeca da Rabeca: Posso dizer que sim, porque antigamente eu era carpinteiro e pedreiro. É um trabalho mais cansativo e de uns tempos para cá eu estou vivendo somente de fandango, graças a Deus. Eu toco nos baile, dou aula de rabeca e ensino a fazer o instrumento. Faço cerca de três rabecas por mês e muitas pessoas me procuram  para fazer encomendas. O valor varia de R$ 300 a R$ 600. Muitas pessoas que compram não sabem tocar, mas querem ter a rabeca porque hoje o fandango é reconhecido e respeitado, e com isso a nossa vida acabou melhorando um pouco também. Hoje dão mais valor. Eu não podia esperar que na minha idade ia sobreviver somente de fandango.

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