Religiosidade

Gerações unidas pela devoção

Entre promessas, orações e tradições transmitidas de pais para filhos, a fé na Padroeira mantém viva a união

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A fé presente nas famílias perpetua um legado espiritual que atravessa o tempo (Foto: Colaboração)

Em Paranaguá, a devoção a Nossa Senhora do Rocio é mais do que uma tradição religiosa, é um elo que une gerações, um sentimento que passa de coração a coração e se renova a cada novembro. Nas casas simples do litoral, nos altares iluminados e nas lembranças guardadas com carinho, o Nossa Senhora do Rocio é a condutora invisível que costura as histórias das famílias, mantendo viva a fé que sustenta e dá sentido à vida de um povo.

Desde os tempos antigos, quando a imagem da Santa foi encontrada nas águas da baía, a devoção se espalhou e se enraizou nas famílias parnanguaras. Pais, filhos e netos cresceram sob o olhar sereno da Padroeira, aprendendo que a fé é também uma herança. A cada geração, as promessas são renovadas, os gestos repetidos, os rituais preservados. O que começou com uma simples prece tornou-se um laço de amor e tradição que atravessa o tempo e o espaço.

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Durante a Festa Estadual do Rocio, esse sentimento se torna visível. As famílias se reúnem para enfeitar as casas, preparar os altares e participar das novenas e procissões. Muitos mantêm costumes antigos, como acender velas nas janelas, carregar fitas coloridas ou depositar flores aos pés da imagem. Cada gesto é um ato de gratidão e fé, um testemunho silencioso de devoção e continuidade.

Há famílias que participam da festa há décadas, cuidando de detalhes, ajudando na organização ou colaborando anonimamente para que tudo aconteça. O trabalho é feito com amor e dedicação, sem buscar reconhecimento, apenas com o desejo de retribuir as bênçãos recebidas. Em cada geração, há quem assuma essa missão com o mesmo entusiasmo e respeito que os antepassados tiveram.

Alexia Vieira e crescimento envolta na atmosfera de fé à Mãe do Rocio

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“Eu comecei a frequentar a Igreja desde pequena. Minha mãe sempre foi católica e minha avó por parte de pai sempre foi muito devota de Nossa Senhora”, afirma a jovem Alexia Stella Matoso Vieira (Foto: Colaboração)

A jovem Alexia Stella Matoso Vieira, de 19 anos, cresceu envolta por essa atmosfera de fé e amor à Padroeira.

“Eu comecei a frequentar a Igreja desde pequena. Minha mãe sempre foi católica e minha avó por parte de pai sempre foi muito devota de Nossa Senhora. Quando terminei a catequese, me afastei um pouco, mas depois recebi um sinal de Deus que eu precisava voltar para casa. Hoje participo do grupo de jovens da igreja e sinto que minha fé se fortalece quando estou perto de pessoas que compartilham a mesma paixão e valores. É como se a presença delas me fizesse sentir em casa. Eu estava desconectada, mas agora Deus me encontrou novamente”, conta.

Luca Batista e fé na Padroeira desde o berço

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“Desde que eu era bebê, meus passos já encontravam caminho até o Santuário do Rocio”, ressalta Luca Batista, de 12 anos (Foto: Colaboração)

Assim como Alexia, muitos jovens redescobrem a fé por meio da convivência e do exemplo das gerações anteriores. Para Luca Batista, de 12 anos, a devoção é parte de sua história desde o berço.

“Desde que eu era bebê, meus passos já encontravam caminho até o Santuário do Rocio. Minha mãe e meus avós sempre me levaram pela mão, mostrando que ali, diante da Mãe do Rocio, o coração descansa e a vida ganha sentido. Com cinco anos entrei para a Pastoral dos Servidores do Altar e hoje participo da coordenação do grupo de jovens Papa Paulo VI. Servir perto do altar me fez sentir o quanto Deus nos chama, mesmo tão pequenos”, relata o jovem com entusiasmo.

Nas romarias, também se vê essa continuidade: pais caminham ao lado dos filhos, irmãos se apoiam, avós acompanham de longe em oração. A jornada até o Santuário não é apenas um ato de fé, mas uma forma de reafirmar os laços que unem. É a fé transformada em herança, passada como um ensinamento sagrado, que molda o caráter e alimenta a esperança.

Nas casas, os altares domésticos guardam relíquias da devoção, imagens, velas, terços, fitas e medalhas. Muitos desses objetos atravessaram gerações, carregando memórias e histórias de gratidão. Cada peça tem um significado, cada detalhe representa uma promessa cumprida, uma súplica atendida, uma presença sentida.

Sueli Delorenzi e sentimento de fé e união em Maria

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“Essa devoção representa nossa fé, nosso amor e proteção para nossa família. Temos a certeza de que estamos envoltos em seu Manto de Amor e Proteção”, ressalta a devota Sueli Delorenzi (Foto: Colaboração)

A devota Sueli Delorenzi resume esse sentimento que atravessa os lares.

“Essa devoção representa nossa fé, nosso amor e proteção para nossa família. Temos a certeza de que estamos envoltos em seu Manto de Amor e Proteção. Nossa Senhora serve como modelo de amor, fé e união. Ao convidar Maria para o centro do lar, a família se coloca sob sua proteção, buscando sua intercessão para alcançar as Graças de Deus.”

Franciele Bezerra e história familiar ligada à Nossa Senhora do Rocio

Para muitas famílias, a presença da Mãe do Rocio é também lembrança de milagres e bênçãos recebidas. É o caso de Francielle de Oliveira Bezerra, cuja história familiar é marcada pela fé.

“A devoção à Nossa Senhora do Rocio é antiga em minha família, especialmente desde o nascimento da minha irmã do meio. Naquele ano, em 1989, quase que minha mãe e minha irmã morreram por complicações pós-parto. Hoje percebo que a intercessão da Mãe do Rocio foi além, se elas tivessem falecido, eu seria sozinha. Meu pai faleceu há três anos, e sem elas, meu núcleo familiar teria se desfeito. Graças à Nossa Senhora, ainda tenho minha mãe, minhas irmãs, meus cunhados e meus sobrinhos, Mariana do Rocio e Francisco. Agradeço todos os anos por tudo o que Ela fez e pelos caminhos dos quais me desviou”, afirma.

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“Agradeço todos os anos por tudo o que Ela fez e pelos caminhos dos quais me desviou”, afirma a devota Francielle de Oliveira Bezerra (Foto: Colaboração)

O Rocio, para as famílias parnanguaras, é mais do que um nome ou uma festa, é uma parte da própria identidade. É o calendário afetivo que marca o tempo, é o encontro que reúne os distantes, é o momento em que a cidade se reconhece em um mesmo sentimento. Durante as celebrações, o ar parece carregado de emoção, há quem venha em silêncio, quem reze em voz baixa, quem apenas contemple a imagem da Padroeira com o coração cheio.

Ao longo dos anos, a tradição familiar do Rocio resistiu às mudanças do mundo. Mesmo com o avanço da tecnologia e o ritmo acelerado da vida moderna, a fé continua sendo o ponto de encontro das gerações. As crianças crescem vendo os mais velhos rezarem, e aos poucos aprendem o valor da devoção, da gratidão e do compromisso com a espiritualidade. Assim, o ciclo se renova, e o amor pela Padroeira do Paraná permanece vivo.

A presença de Nossa Senhora do Rocio nas famílias é também uma forma de proteção e consolo. Em tempos de alegria ou de dificuldade, é a fé que acolhe, que acalma, que dá forças. O lar se torna um pequeno santuário, onde o sagrado se mistura à rotina e onde cada oração é uma ponte entre o humano e o divino.

E quando chega o dia da grande festa, as gerações se reencontram diante do Santuário. Mãos se unem, olhos se voltam para a imagem, e o mesmo sentimento de pertencimento e gratidão envolve a todos. O que se vê não é apenas uma multidão, mas uma grande família, a família do Rocio reunida pela fé, pela tradição e pelo amor que não envelhece.

Assim, a história das famílias do Rocio é também a história de Paranaguá: uma história de fé inabalável, de continuidade e de esperança. Um testemunho de que, enquanto houver um coração devoto e uma vela acesa diante da Santa, o legado do Rocio permanecerá vivo, iluminando caminhos e unindo gerações sob o manto da Padroeira do Paraná.


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Maickon Chemure

Formado em Matemática pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá (FAFIPAR) em 2018. Desempenha suas funções na Folha do Litoral News desde 2024 como Repórter Policial, além de produções audiovisual. Atua há 16 anos na área de reportagem. Exerce as suas atividades na Folha do Litoral News como coprodutor (PJ).

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