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Coronavírus

Estudo da Fiocruz associa casos graves da Covid-19 a envelhecimento do sistema imune

Com isso, há perda da capacidade de resposta das células de defesa

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Foto: Shutterstock - OPAS/OMS

Na quarta-feira, 24, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) anunciou mais um estudo científico em torno da Covid-19 e motivos para agravamento da doença em pacientes, algo que foi feito em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e publicado na revista científica Journal of Infectious Diseases. Segundo os pesquisadores, casos graves da doença causada pelo Coronavírus podem estar associados ao envelhecimento do sistema imune, algo que ocasiona perda da capacidade de resposta das células da defesa diante da infecção pelo vírus. 

De acordo com a Fiocruz, a análise científica foi feita por meio de análises de amostras de sangue de pacientes hospitalizados com a Covid-19. Segundo os pesquisadores, foram detectados sinais de exaustão, envelhecimento e hiperatividade de células de defesa, conhecidas como linfócitos T auxiliares. “Os dados indicam perda da capacidade de resposta dessas células na Covid-19 grave, o que pode facilitar infecções secundárias e reinfecções”, detalha a fundação.

Segundo a Fiocruz, a pesquisa também teve a participação do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), pelo Hospital Naval Marcílio Dias, pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). “No IOC/Fiocruz, os Laboratórios de Imunoparasitologia e de Pesquisa sobre o Timo participaram do trabalho. A publicação foi dedicada à pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz Juliana de Meis, que faleceu em julho devido à Covid-19”, explica.

Avanço da doença e reinfecção

Segundo o coordenador do estudo e pesquisador do Laboratório de Imunoparasitologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e professor da Faculdade de Medicina da UFRJ, Alexandre Morrot, os  linfócitos T auxiliares atuam como maestros do sistema imune do ser humano, sendo essenciais no combate à Covid-19, reconhecendo proteínas virais e ativando células de defesa para enfrentar o vírus, com produção de anticorpos. “Nos pacientes com Covid-19 grave, observamos que os linfócitos T CD4 [auxiliares] estão em estágio final de diferenciação, apresentando marcadores de exaustão e senescência. São células que perderam a capacidade de expansão clonal, ou seja, não vão se multiplicar ao entrar em contato com as proteínas virais e não vão conseguir comandar uma resposta imunitária eficiente”, completa Morrot.

“A queda na imunidade deixa os indivíduos mais vulneráveis para contrair outras infecções, como as pneumonias bacterianas, que são comuns em pacientes hospitalizados por Covid-19”, explica a Fiocruz (Arte: Jefferson Mendes/Fiocruz)

O pesquisador ressalta que a partir de então o quadro pode ser caracterizado como um estado de imunodeficiência aguda. “A queda na imunidade deixa os indivíduos mais vulneráveis para contrair outras infecções, como as pneumonias bacterianas, que são comuns em pacientes hospitalizados por Covid-19”, detalha a Fiocruz, ressaltando que o efeito também explica a ocorrência de reinfecções. 

“Desde o começo da emergência de saúde pública, registros de indivíduos reinfectados pelo Sars-CoV-2, mesmo após casos graves de Covid-19, surpreenderam os cientistas. Isso porque infecções virais agudas costumam produzir uma memória imunológica forte, que evita, por exemplo, que a mesma pessoa contraia sarampo ou catapora duas vezes”, informa a assessoria.

“A reinfecção ocorre em uma fração pequena dos casos, mas é mais comum do que seria esperado. A disfunção das células T CD4 [auxiliares] pode explicar a ausência de memória imunológica de longo prazo na Covid-19 grave”, pontua o coordenador.

Casos graves e hiperativação imune

Segundo a Fiocruz, o estudo comparou amostras referentes a 22 pacientes internados com casos graves de Covid-19 com amostras coletadas de indivíduos saudáveis. “Além da presença de moléculas consideradas como marcadores de senescência e exaustão nos linfócitos T auxiliares, os pesquisadores encontraram altos níveis de substâncias inflamatórias liberadas por essas células no soro dos pacientes”, completa.

Os estudiosos afirmam que isso indica algo denominado de hiperativação, levando os linfócitos ao estágio final de diferenciação celular, algo que ocasiona exaustão e envelhecimento do sistema imunológico. “Tudo isso reforça a importância de terapias anti-inflamatórias, voltadas para controlar a resposta imune exagerada, que é uma vilã na Covid-19”, ressalta Morrot.

De acordo com a Fiocruz, os estudos analisaram somente a fase aguda da infecção, com isso o coordenador ressalta que não é possível apontar se há prejuízo ao sistema imunológico de pessoas infectadas a longo prazo. “A Covid-19 ainda é uma doença nova e não sabemos como será a sua evolução. A literatura científica indica que células exauridas podem recuperar sua função. Já as células senescentes podem morrer e ser substituídas por células jovens. É possível que alguns meses após a doença, os pacientes não apresentem mais essas alterações, mas isso terá que ser acompanhado”, destaca.

“O estudo foi financiado pelo programa Inova Fiocruz, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Fundo para Convergência Estrutural do Mercosul (Focem). A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neuroimunomodulação (INCT-NIM) e da Rede de Pesquisa em Neuroinflamação do Rio de Janeiro”, finaliza a Fiocruz.

Com informações da Fiocruz

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