Em um tempo dominado pela velocidade, pela rolagem infinita e por conteúdos que duram poucos segundos, a forma como pensamos pode estar mudando e não necessariamente para melhor. Nunca houve tanto acesso à informação, mas, paradoxalmente, essa facilidade de acesso a inúmeros assuntos pode fazer com que as pessoas reflitam menos? Especialistas apontam que a avalanche de conteúdos rápidos cria uma “ilusão de aprendizado”, onde dados são acumulados, mas sem aprofundamento real.
As redes sociais, moldadas por algoritmos que privilegiam o imediato e o simples, podem estar transformando debates complexos em frases curtas, opiniões rasas e certezas instantâneas. Nesse cenário, pensar exige tempo e o tempo virou um recurso escasso. O psicólogo Wilson Silva explica que até um tempo atrás, livros e jornais eram lidos pacientemente. “Tínhamos tempo para processar aquela informação, para pensar, refletir, assentar sobre o nosso conhecimento, sobre o nosso raciocínio e memória, principalmente. Com o advento das Inteligências Artificiais (IAs), perdemos muito essa capacidade de refletir e sem a devida reflexão, o conhecimento não se assenta, não se cristaliza, não toma corpo. Nossa saúde se adapta a essa nova realidade virtual, mas não temos ganho com isso. Pelo contrário, temos ansiedade”, avalia.
Segundo ele, até mesmo tarefas simples, como buscar informações na internet, passaram por uma transformação que impacta o funcionamento mental. “Antes, você precisava procurar, ler as alternativas de links sugeridas. Agora, é possível jogar a pergunta na IA e ela te mostra onde está. Isso acaba deixando a mente mais preguiçosa. A gente pensa menos, exige um custo menor”, observa.
“Cérebro busca relação custo-benefício”
Wilson Silva explica que o cérebro tende naturalmente à economia de energia, o que ajuda a entender esse comportamento. “Pensar demanda muita energia. O cérebro busca essa relação custo-benefício: se está sendo muito custoso, ele otimiza. A gente entra em um estado mais automático, repete processos e deixa de refletir. Com a IA, tudo já vem pronto, e essa acomodação dificulta que o conhecimento se fixe. Não conseguimos, muitas vezes, nem formar uma opinião sobre o que estamos aprendendo”, enfatiza.
Apesar de ainda ser cedo para estabelecer relações diretas com doenças cognitivas, ele alerta para impactos claros no processo de tomada de decisão. “É um fenômeno muito recente para dizer que há ligação com doenças cognitivas, mas, para tomar decisão, é preciso tempo, reflexão e o acesso muito rápido à informação acaba polarizando o pensamento. Fica tudo no ‘sim’ ou ‘não’, ‘certo’ ou ‘errado’, e a gente perde a capacidade de enxergar nuances”, alerta.
Esse cenário também traz consequências para quem precisa estudar ou ser avaliado, como em concursos públicos. “Hoje temos acesso a muitas informações, mas isso não significa conhecimento. Para conhecer, é preciso que a informação se assente. Sem isso, fica mais difícil fazer uma prova, competir em um concurso, demonstrar o que se sabe”, avalia.

Tecnologia: uma vilã?
O psicólogo ressalta, no entanto, que a tecnologia não deve ser vista como vilã, mas como ferramenta desde que usada com consciência. “A inteligência artificial é muito útil, mas é preciso saber usá-la sem deixar que substitua o cérebro. Por isso, a educação digital é fundamental”, ressalta.
Ele também chama atenção para o caráter viciante do uso dessas ferramentas, ligado a mecanismos de recompensa do cérebro. “É tentador, porque ativa o sistema dopaminérgico, com recompensa muito rápida. Mesmo que depois não haja prazer, pode se tornar um comportamento viciante. E isso gera ansiedade”, frisa. Na prática, isso pode dificultar até ações básicas, como parar para pensar. “Quando a pessoa precisa demonstrar conhecimento, ela não consegue parar, raciocinar, refletir e se expressar, porque já está tomada pela ansiedade”, lamenta.
Os efeitos, segundo ele, tendem a ser ainda mais intensos entre os mais jovens. “O cérebro está em desenvolvimento até, pelo menos, os 25 anos. Se a pessoa cresce nesse sistema de imediatismo, de respostas rápidas, sem reflexão, pode ter muita dificuldade depois para reaprender”, avisa. Outro ponto destacado é o medo constante de “perder” informações, que mantém as pessoas conectadas o tempo todo. “Há um risco grande nesse fluxo acelerado de informação. A pessoa fica atrás de tudo o que é publicado, mesmo sem conteúdo relevante. É o medo de perder algo”, ressalta. Esse comportamento, segundo o profissional, ajuda a explicar o aumento da ansiedade. “O Brasil está entre os países que mais usam internet e também entre os mais ansiosos. Parece haver uma relação forte”, observa.
Para o psicólogo, esse padrão vai além de temas relevantes e alcança também conteúdos triviais do cotidiano. “Isso vale para tudo: política, fofoca, acontecimentos do dia a dia. A pessoa sente que precisa estar sempre atualizada, o tempo todo”, reforça.





