Sob o Véu

ORIGEM DA PARÁBOLA

Professor Henrique José de Souza

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“Certo dia – o último dia da Idade de Oiro ou Satya-Yuga – a Mentira surpreendeu a Verdade enquanto esta dormia e roubando-lhe as vestes, com elas se cobriu, tornando-se a soberana única na Terra.”

Seduzido o mundo pelo falso brilho da Mentira disfarçada em Verdade, logo foi despojado da sua primitiva inocência, renunciando a toda Sabedoria, a toda probidade e justiça. Expulsa e menosprezada, a Verdade cedeu seu lugar à sua rival, a Mentira, pois esta, usurpando-lhe o nome, substituído foi o antigo culto que se rendia ao verdadeiro e ao justo pelo falso e injusto.

Tudo quanto a Verdade dizia – e assim continua até hoje – era qualificado de falso, intolerável e extravagante. A despeito, pois, de seus legítimos foros, chegou a Verdade ao ponto de suplicar, por onde quer que passasse, “que a ouvissem ou atendessem”, mas sempre era repelida com o maior desprezo e altivez… Os mais insolentes qualificavam de imoral a sua casta e ingênua nudez!… “Segue o teu caminho, mulher odiosa, que desse modo te atreves a aparecer diante de nossos olhos até hoje isentos de tamanha indignidade! Jamais terás o prazer de nos seduzir com os absurdos da tua linguagem e a indignidade da tua nudez!”.

Convencida a Verdade de que a Humanidade não mais a admitia em seu meio, foi ter ao deserto. E logo ali chegou teve ocasião de encontrar, junto a uma sarça, as imundas vestes deixadas naquele lugar pela Mentira, quando lhe roubou as suas… E, como não tivesse outras, vestiu-se com elas, ficando assim a Verdade sempre Verdade, porém disfarçada com as características vestes da Mentira…

Assim metamorfoseada, a Verdade pôde voltar para o meio dos homens, que a acolheram, ao mesmo tempo, alegres e maravilhados. Aqueles mesmos que antes se escandalizaram com a sua nudez foram os primeiros a recebê-la – sob tão estranho disfarce – com o belo e significativo nome de fá bula ou “Parábola”, que ela mesma adotou desde aquela época até hoje…”.

COMENTÁRIO

A formosa alegoria que acabamos de descrever não é mais do que uma versão, das mais felizes, dos versículos 30 e 38 do Sura II do Corão, conhecida por “A Vaca”, pois o profeta Mahoma, dirigindo-se a seu povo, teve ocasião de dizer: “Ó filhos de Israel! lembrai-vos sempre dos benefícios com que vos tenho cumulado, segundo os vossos próprios desejos. Sede fiéis à minha aliança, que eu também o serei… Não oculteis a verdade uma vez conhecida, nem a revistais jamais com a roupagem da mentira.”

Enquanto, no versículo 64 do Sura seguinte, se repete: “Ó vós, ingratos que recebestes as Escrituras (judeus, cristãos, árabes), por que ocultais o verdadeiro, se já o conheceis? Por que razão, per versos, vestis a Verdade com o manto da Mentira?”.

A vibrante censura de Jesus aos fariseus, chamando-os de “lobos disfarçados em ovelhas”, e “sepulcros esbranquiçados”, como pode ser visto em diversas passagens do Evangelho, serve, por sua vez, de base a Mahoma para dizer a mesma coisa nos supracita dos versículos.

O mito universal, do mesmo modo, apresenta-nos de várias maneiras, o verdadeiro sentido iniciático que, no Oriente, se dá à “maya”, ou à ilusão de tudo quanto nos cerca neste mundo, e contra o que temos de lutar se quisermos realizar nossa missão terrena – ou seja, a de buscar a Senda da Verdade, desmascarando heroica e laboriosamente a mentira, que, a cada passo, se nos apresenta com o enganador e prejudicial disfarce do verdadeiro e do justo.

Dir-se-ia, com efeito, que as duas evoluções – animal e propriamente dita humana – existentes no homem, lutam constantemente pela hegemonia: uma, armada da mentira ou “ilusão de verdade”; e a outra, com a própria Verdade, embora que sempre verdade mais ou menos relativa e perfectível.

Razão por que nossa vida não é mais do que uma contínua perda de ilusões tomadas por verdadeiras, por se acharem sob a máscara do disfarce ao se apresentarem diante de nossos olhos, mais que grosseiros…

Que foi feito daqueles encantos maravilhosos de nossas brincadeiras infantis, como nossa única e absorvente verdade daquela época? Que dizer, ainda, de nossas amorosas ilusões de jovens, cuja perda brutal tem levado a muitos ao nefasto suicídio e outros à própria loucura?

Do mesmo modo, nossas aspirações de riqueza, honra, fama e poder que àqueles sucederam?…

“Verduras das eras”, como dizia o “Livro de Job”, não eram senão ilusões disfarçadas em coisas verdadeiras e tangíveis.

Mas esse caminho – o de ver, em cada passo que damos no decorrer de nossa vida, a consequente morte de uma ilusão – nos conduziria direta mente ao negro pessimismo, se, ante a desilusão de ver aparecendo cada vez mais as vestiduras da mentira à medida que a vamos despojando da quelas que à Verdade foram roubadas, não correspondesse, na mais lógica e perfeita das simetrias, a “anti-ilusão” da busca da Verdade, que, nos homens de vida normal e pura, vai enchendo, com notória vantagem, o vazio deixado pela ilusão ao despojar-se das suas enganadoras vestes…

Ninguém, entretanto, pôde van gloriar-se neste mundo de ter arrebatado da Verdade a última das suas vestes – o “Véu de Isis”, como diriam os antigos – véu, talvez, de piedade suprema, que procura eclipsar os ardores vulcânicos de uma Suprema Verdade, à qual não poderíamos olhar face a face, sem nos sobrevir a morte, do mesmo modo que ao Sol não podemos olhar horas segui das sem que nos tornemos cegos…

E isto, porque a Mentira absoluta não existe, como não existe nenhum outro dos conceitos negativos, simples efeitos de contraste com os opostos conceitos positivos.

Os homens chamam de mentira a todas aquelas verdades relativas, ou de grau inferior a outras verdades mais altas que já possuímos – do mesmo modo que fazemos, na ignorância de nosso próprio futuro, quantas outras verdades nos poderão aparecer, muito mais excelsas ainda do que aquelas que, com um pouco de esforço e boa vontade, já logramos alcançar com o auxílio de nosso próprio mental.

Razão por que pôde afirmar o grande Ragon, que é “preciso desvendar o que é
falso para se descobrir o verdadeiro”.

Por nossa vez, a alguém que nos indagou, em tom de crítica, “onde estava a verdade?”, respondemos categoricamente: “Por trás da Mentira” – isto é, deixar à mentira ou ao erro os véus de que se reveste, para chegar à verdade que jaz oculta por baixo de todas elas.

Por isso, ainda, Espronceda pôde cantar o titanismo vitorioso que a conquista da verdade exige, se se lhe deixarem os véus grosseiros que a encobrem, para poder contemplá-la face a face, e cantar, ao mesmo tempo, esse ilusório cristal da mentira – cristal em que a verdade se reflete tal como o es batido sombrio da luz das estrelas na superfície dos lagos.

Semelhante cristal, enfim, é aquele cuja cor, interposta entre nossos olhos e o mundo exterior, faz-nos ver este último colorido sempre pelas correspondentes ilusões, idêntico ao da conhecida “Dolora”, do vate-filósofo asturiano. Dolora esta nunca por demais louvada pelos maiores e mais sensatos pensadores do mundo.

Na Índia, a iniciação é feita através da “Maya Budista ou Maya-Vada”, isto é, a Verdade é ensinada através dos véus da fantasia.

Jeoshua (ou Jesus), como “Adepto budista que era” – pouco importando opiniões contrárias -, ensinava aos seus discípulos de modo revelado e, ao povo, segundo o referido método oriental, melhor dito, “por meio de Parábolas”.

Dentre elas, por exemplo, a do “Filho Pródigo que volta à Casa Paterna”, que outro sentido não tem senão o da Mônada que volta ao Seio de Ishvara, ou seja, o mesmo donde um dia desceu ao mundo.

Na mesma razão do dito de S. Agostinho: “Viemos da Divindade e para Ela havemos de ir”.

No Ocidente, já se adota o sistema do test, com seu significado de “prova”, isto é, a prova a que se expõe a Inteligência do aluno na descoberta da Verdade por baixo do véu da fantasia.

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