Profª Lúcia Helena Freitas da Rocha
O fandango faz parte da vida social de comunidades caiçaras no litoral de São Paulo e do Paraná. É uma expressão cultural que envolve música, tocada com violas, rabecas, adufos; dança em pares e em roda, com sonoro sapateado feito com tamancos; e ainda improviso de versos. Sua prática é associada à diversão e à socialização, em bailes ofertados como retribuição a mutirões de trabalho, em festas religiosas, no carnaval e era mais comum no ambiente familiar e comunitário dos sítios.
A partir do final da década de 1990, formaram-se muitos grupos de fandango que se apresentam também em clubes urbanos e participam dos circuitos de cultura. A organização de grupos pode ser pensada como um anseio dos próprios fandangueiros, por vezes com incentivo de pesquisadores e agentes culturais, em salvaguardar aspectos do modo de vida tradicional caiçara, cujas transformações foram aceleradas na segunda metade do século XX pela especulação imobiliária do litoral e, sequencialmente, pela criação de grandes unidades de conservação de proteção integral. Muitos moradores de sítios litorâneos e rurais foram pressionados a migrar para as periferias urbanas, formando até mesmo bairros caiçaras.
O reconhecimento do fandango caiçara como patrimônio brasileiro pelo IPHAN, em 2012, foi um desdobramento da atuação de uma rede constituída a partir do projeto Museu Vivo do Fandango e de encontros e festas de fandango que se intensificaram desde a virada do século.
O baile de fandango é uma confraternização dos caiçaras como pagamento pelos mutirões, tradicionalmente acompanhado de comidas e bebidas, como a cataia, por exemplo. É dançado com tamanco de madeira, calçado utilizado exclusivamente pelos homens. Assim, constrói-se um som de sapateado, enquanto as mulheres dançam graciosamente com suas longas saias. Os instrumentos utilizados são fabricados artesanalmente pelos fandangueiros, que utilizam principalmente a madeira conhecida como caxeta. A formação instrumental é composta basicamente de: dois tocadores de viola, um tocador de rabeca – chamado de rabequeiro ou rabequista – e um tocador de adufo ou adufe. O machete, instrumento de cordas mais simples e menor que a viola, foi bastante utilizado anteriormente, mas sua utilização é rara nos dias atuais. De modo geral, as músicas cantadas no fandango caiçara falam sobre a vida dos caiçaras e contam histórias sobre o seu cotidiano, seus amores, sua fé, a natureza e os desejos humanos, retratando o que é mais importante em suas vidas.
No Concurso ENTRE ETNIAS DO MEU PARANÁ promovido pelo SESC Paraná, a artista plástica Tatiane Priscila Rosa do Couto retratou o Fandango Caiçara, no dizer da artista: “À sombra da primeira catedral do Paraná, no coração de Paranaguá, ecos de tambores, rabecas e sapateados unem etnias e memórias. O fandango caiçara ressurge como dança de pertencimento, celebrando as raízes indígenas, africanas e europeias que moldaram o litoral paranaense”, obtendo a sétima colocação e a premiação em ter a sua obra retratada no livro do concurso.
O fandango é mais do que uma dança; é uma expressão de identidade cultural. Nas festas religiosas, nos mutirões de trabalho e nas celebrações populares, o fandango sempre esteve presente, simbolizando a união comunitária e o vínculo com tradições ancestrais. O fandango é um elo entre culturas, um símbolo de tradição e resistência cultural que permanece vivo em diversas partes do Brasil.





