Caro leitor, convido você a caminhar novamente pelas ruas de Paranaguá, lembrando que, antes de a eletricidade tomar de assalto as noites urbanas, a cidade vivia mergulhada em completa escuridão.
E era então que surgiam, discretos, pacientes, quase invisíveis, aqueles que, ao entardecer, acendiam a vida.
Munidos de longas varas, na ponta uma pequena chama que parecia roubar do dia seu último fôlego, percorriam as ruas despertando os lampiões.
Cada clarão que se erguia do vidro embaçado era mais do que luz: era promessa de segurança, de encontro, de conversa prolongada.
Ao amanhecer, voltavam, apagando os mesmos pontos, limpando a fuligem, abastecendo com novos líquidos a chama que daria corpo à noite seguinte.

Em Paranaguá, esse ofício ganhou contornos de poesia e melancolia.
Quando o sol mergulhava atrás da baía, deixando após si um clarão desbotado, a cidade ficava submersa em sombras quase totais.
Então surgia a figura do acendedor de lampiões, com passos firmes e vara erguida, tocando de fogo os trinta e seis lampiões que, desde 1844, pontuaram as ruas principais: seis na Rua da Praia, vigiando trapiches e embarcações; oito na Rua da Cadeia e da Ordem, guardiões da lei e da disciplina; sete no rumoroso Ouvidor, onde negócios e boatos se confundiam; cinco na Rua Direita; quatro na Gamboa; e seis na Rua da Misericórdia, diante de sobrados aristocráticos e edifícios públicos.
Cada chama não era apenas claridade — era distinção. Iluminar significava também escolher quem merecia estar à vista, quem podia estender o dia.
O trabalho, contudo, era ingrato.
O óleo de baleia, raro e caro, cedia lugar ao azeite de mamona ou ao óleo de peixe, que fumegavam pesados e deixavam no ar um cheiro acre.
O querosene, quando chegou, trouxe algum alívio: luz mais viva, manutenção mais leve. Ainda assim, entre fuligem, vidros turvos e a teimosia da chama contra o vento, o acendedor tornava-se guardião silencioso da noite.
Mas nem sempre o gesto se cumpria por inteiro.
Em 1850, o Presidente da Província lamentava que, por falta de recursos, não se acendiam mais do que quatro lampiões — quase sempre os da Cadeia e da Alfândega.
O restante da cidade permanecia na penumbra, revelando o abismo entre os sonhos de progresso e a realidade de um porto que, mesmo vital ao comércio, não conseguia iluminar a si próprio.
E assim, entre o fulgor breve das chamas e a escuridão persistente, o ofício do acendedor de lampiões atravessou décadas.
Sua presença era como um rito: a cada crepúsculo, anunciava a continuidade da vida; a cada aurora, entregava a cidade novamente ao sol.
Até que a eletricidade, anunciada como triunfo da modernidade, fez desaparecer para sempre essa figura que, por tanto tempo, ensinou a noite a brilhar.





