História, Memória e Patrimônio

O Guincho Esquecido

Caro leitor, convido-o a caminhar comigo por um tempo em que Paranaguá ainda aprendia a dialogar com o mar, quando o porto era mais do que um lugar de passagem: ...

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Caro leitor, convido-o a caminhar comigo por um tempo em que Paranaguá ainda aprendia a dialogar com o mar, quando o porto era mais do que um lugar de passagem: era o próprio coração pulsante da cidade.

No Brasil do século XIX, os guindastes surgiram como braços de ferro estendidos sobre as águas, indispensáveis à vida portuária. Por meio deles, cargas eram içadas e mercadorias descarregadas, enquanto os navios recebiam apoio para sua manutenção. À medida que as embarcações cresciam em tamanho e complexidade, ampliava-se também a necessidade de equipamentos mais robustos, capazes de sustentar o peso do progresso que chegava pelos mares.

Esses engenhos silenciosos tornaram-se peças centrais da engrenagem portuária. Moviam caixas, fardos e máquinas; auxiliavam na organização dos depósitos e no ritmo cotidiano do cais. Mais do que simples instrumentos, os guindastes simbolizavam o avanço técnico de seu tempo e afirmavam o porto como espaço de encontros — de mercadorias, de pessoas e de destinos.

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Antônio Vieira dos Santos, em sua obra Memória Histórica de Paranaguá, volume II, conduz-nos a um cenário ainda mais antigo. Quando a Alfândega funcionava no Colégio dos Jesuítas, existia, voltado para o mar, um trapiche destinado ao vaivém das embarcações. Por ali circulavam mercadorias diversas, como tecidos que vestiam corpos e anunciavam modas vindas de além-mar.

Foi nesse ponto, às margens do rio Itiberê, que se instalou o primeiro guindaste mecânico do porto. Um artefato discreto, mas decisivo, encarregado de mover volumes e sustentar o comércio local. Quantas mãos o acionaram? Quantos olhares acompanharam, atentos, o subir e descer das cargas?

Já no início do século XX, o Diário do Comércio, em edição de 12 de dezembro de 1924, registra a reforma de um guindaste da então Rua da Praia — atual Largo Glicério, esquecido por anos após partir-se em dois, não podemos afirmar que era o mesmo guindaste que servia à Alfândega de Paranaguá.

Na gestão do prefeito Dr. Francisco Accioly, o equipamento foi restaurado e voltou a servir ao comércio, permitindo a descarga rápida de máquinas e volumes de até quatro toneladas.

Assim, o desenvolvimento do porto de Paranaguá revela-se como um movimento contínuo, acompanhando o deslocamento das atividades portuárias ao longo do Itiberê. Fica, portanto, um convite silencioso: ao passar diante daquele antigo guindaste, permita-se pausar e refletir sobre as histórias — tantas vezes esquecidas — que ainda repousam sobre o ferro e a memória.


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Hamilton Ferreira Sampaio Júnior

Hamilton Ferreira Sampaio Júnior é pesquisador de história e genealogia, formado em Teologia e licenciado em História. Faz parte da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia e do Departamento Cultural do Club Litterario de Paranaguá, sendo também sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá. Atua em projetos históricos de resgate de memória, livros comemorativos e biografias, além de projetos museológicos e pesquisas documentais para segunda cidadania. Seu mais recente trabalho foi o livro comemorativo dos 100 anos da Associação Comercial Agrícola e Industrial de Paranaguá.

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