Reza a tradição que, no lugar onde hoje se ergue o Santuário da Virgem do Rocio, moravam, à beira da baía, simples pescadores, homens do vento e das marés, que faziam da rede e do remo a esperança de cada dia.
Entre eles vivia Pai Berê, alma humilde e coração temente a Deus. Conta-se que, certa manhã, lançou-se ao mar em busca do sustento dos filhos. Lançou as redes uma, duas, muitas vezes — e o mar, silencioso e fundo, nada lhe devolvia.
Cansado e aflito, ergueu os olhos ao céu e suplicou ao Criador que não o abandonasse naquela hora de penúria. Foi então que, pela última vez, lançou as redes. Quando as puxou, sentiu-as pesadas, prenunciando boa pescaria. Mas, em vez de peixes, traziam uma pequenina imagem de Nossa Senhora, ainda reluzente de gotículas d’água que faiscavam ao sol nascente como se o próprio céu se refletisse nelas.
Com ternura e espanto, Pai Berê acolheu a Imagem e levou-a à sua modesta choça, depositando-a num simples oratório feito com suas próprias mãos. E desde aquele dia — assim diz o povo — o mar se fez generoso. As redes voltaram cheias, e nunca mais faltou o pão à mesa dos pescadores.
Movidos pela fé, eles passaram a reunir-se diante da Santinha, para rezar, agradecer e louvar os dons concedidos pela Providência Divina, por meio daquela que é Mãe e Estrela dos Mares.
Entre as histórias sobre o achado da Imagem, esta é a que o povo guardou com mais ternura. É a que soa mais verdadeira, mais humana — porque fala do encontro entre o sagrado e o simples, entre o mar e o coração do homem.
E assim, quer tenha surgido entre as roseiras ou das ondas azuis da baía, Nossa Senhora é celebrada com os doces nomes com que a ladainha a exalta: “Rosa Matutina” e “Estrela do Mar.”
Há ainda quem conte — de pais a filhos, de avós a netos — que foi a própria Virgem quem escolheu o lugar onde deveria ser erguida a primeira capelinha em sua honra. E ali, onde a fé floresceu como rosa ao amanhecer, ergue-se hoje o seu Santuário, guardando nas paredes e nas preces o eco eterno dessa lenda bendita.
RIBEIRO, Anibal. História de Nossa Senhora do Rocio. Paranaguá: Própria, 1976. 18 p. v. 1.





