Convido o leitor a acompanhar-me até a Estação Ferroviária de Alexandra, construída em 1883. Essa edificação transcende a função de mero edifício de alvenaria: é um relicário de memórias, enraizado no seio da comunidade que ali floresceu, guardando a história dos primeiros imigrantes italianos no Paraná. Cada tijolo e viga carrega ecos do passado — festas, partidas de trens, o trabalho ferroviário e o sonho de uma nova vida.
Quase integralmente preservada, a estação resistiu ao abandono e às mudanças impostas pelo tempo. É o único exemplar do século XIX que mantém sua configuração original ao longo da Estrada de Ferro Paranaguá–Curitiba. Foi testemunha da formação da identidade paranaense, marcada pela diversidade cultural e pela união diante dos desafios do litoral.
Mais que uma estrutura física, é símbolo de pertencimento — um roteiro vivo de vínculos e tradições, a ser transmitido às novas gerações. Seu estado atual mobiliza moradores e educadores, que pleiteiam sua preservação como bem patrimonial, espaço identitário e ferramenta de educação cultural (FRANZOI; BRUNO, 2011).
Preservar a Estação de Alexandra é manter viva a essência do bairro, honrar os ancestrais e garantir que a memória não se apague. Ali teve início a colonização italiana no Paraná. A comunidade reconhece que preservar a história é construir um futuro mais coeso e pleno de significado.
O topônimo “Alessandra”, depois aportuguesado para “Alexandra”, homenageia a irmã do fundador da colônia. Desde 1870, mesmo diante de instabilidades políticas, a Colônia Alexandra destacou-se como experiência pioneira de imigração italiana no Paraná, influenciando a fundação da Colônia Nova Itália, nos atuais municípios de Morretes e Antonina (PARANÁ, 1970).
Desde o início, Alexandra foi planejada como parada estratégica na malha ferroviária. Em 1875, Lamenha Lins já a citava como ponto técnico essencial, facilitando a ligação entre colonos e mercados consumidores (PARANÁ, 1875).
Seu edifício atual, praticamente intacto, tem 145 m² distribuídos em dois andares e está localizado no km 16+180 da ferrovia, à direita para quem parte de Paranaguá.
O pavimento superior abrigava a residência do agente ferroviário, como era comum na época.
Embora alguns atribuam ao prédio traços de arquitetura francesa, sua tipologia é essencialmente funcional. Mesmo com alterações, mantém sua autenticidade — sendo o único, no trecho, que preserva integralmente a configuração original (IPHAN, 2016).
Vale a pena, em qualquer dia, visitar esse pedacinho de história viva no município de Paranaguá e imaginar as chegadas e partidas dos primeiros imigrantes italianos e pensar que “Santa Felicidade” começou ali.





