Os antigos moradores de Paranaguá certamente se lembrarão do sítio de Galdino, um lugar encantador, situado nas redondezas do Imbocuí.
Em 1884, quando o movimento abolicionista fervilhava em todo o país, aquele recanto, que já era palco de tantas alegrias para a juventude da época, tornou-se cenário de um momento inesquecível na luta pela liberdade.
Galdino era um homem simples, dono de um sítio cercado por frondosas jabuticabeiras. Dizia-se que ele possuía três escravizados — mas a história que se viveu ali provou ser muito mais rica do que qualquer papel poderia contar.
Naquele setembro, mês em que as andorinhas voltam a enfeitar os céus, os abolicionistas de Paranaguá — verdadeiros heróis da palavra e da coragem — decidiram fundar a Sociedade Abolicionista Parnanguara. Para marcar esse passo, organizaram no sítio de Galdino uma grande celebração pela liberdade, talvez a mais emocionante já vivida na cidade.
Entre os participantes estavam nomes que ficaram na memória da cidade: João Eugênio Marques, João Régis Pereira da Costa, Afonso Camargo Penteado, padre Marcelo Anunziata, Antônio Santa Rita, doutor Almeida Lima, Presciliano Correia e José Cleto da Silva. Todos eles, já falecidos, deixaram um legado de bravura.
À sombra das jabuticabeiras, onde a natureza parecia abençoar o encontro, João Régis — com a alma vibrante de juventude — fez um discurso inflamado. Relembrou os horrores da escravidão e, em nome de seus companheiros, fez um apelo direto à consciência de Galdino, pedindo a libertação daqueles três homens.
A resposta veio com a mesma força. João Eugênio Marques se levantou, envolto pelo brilho do sol da tarde, e leu, com emoção, o documento lavrado pelo tabelião da cidade: Galdino libertava oficialmente os três cativos. Eles foram chamados, ouviram suas novas vidas sendo proclamadas — e se fez silêncio.
Foi quando Galdino, com a simplicidade que lhe era própria, falou: “Nunca tive escravos; que eles respondam.”
E ninguém disse nada. A verdade era clara: mesmo libertos, aqueles homens escolheram ficar. Porque ali, naquele sítio, sempre foram tratados com dignidade.
O almoço foi servido em uma longa mesa, sob a copa generosa das jabuticabeiras. Entre sabores e emoções, padre Marcelo Anunziata, com sua voz firme e comovida, falou sobre a força do movimento abolicionista que crescia pelo Paraná.
Quando a festa chegou ao fim, a comitiva partiu sob a luz suave do entardecer. O caminho de volta era perfumado pelas flores silvestres que brotavam à beira da estrada, como se a própria primavera rendesse homenagem àqueles homens e mulheres que, com coragem e fé, lutavam por um ideal mais justo e humano: a liberdade.
FIGUTIRI , Alberico. Coisas Nossas: Um Sítio Histórico. Paranaguá: [s. n.], 1966. 1007 p. v. 1.





