História, Memória e Patrimônio

A Cruz do Pica-Pau 

As ruas de pedra, o cheiro de mar misturado à poeira contavam histórias de gente simples, mas cheia de vida e sentimentos

ksovpy

Caro leitor, nos primórdios do século passado, Paranaguá era uma cidade que vivia entre a ordem e o respeito, mas também carregava suas paixões e conflitos. 

As ruas de pedra, o cheiro de mar misturado à poeira contavam histórias de gente simples, mas cheia de vida e sentimentos.

Entre os moradores, havia um homem chamado Pica-Pau. Homem simples, trabalhador e devotado à família, morava na Costeira e passava os dias no Porto D’Água, entre tábuas e martelos, respirando o cheiro da madeira recém-cortada. Seu apelido vinha da profissão, mas também de sua energia inquieta: saía cedo, antes do sol nascer, e voltava apenas ao entardecer. No caminho, sempre se detinha em um boteco, onde as horas se perdíam em risadas, histórias e confidências com os amigos.

Seu melhor amigo era Nonô Cabloco. Vizinho e cúmplice de muitas longas conversas e copos de cachaça, Nonô dividia com Pica-Pau risadas e segredos, mas também carregava um ciúme silencioso. Sempre que surgia o tema de mulheres, Pica-Pau, generoso e brincalhão, elogiava a esposa de Nonô — e o amigo, às vezes, sentia um aperto no peito, misto de ciúme e medo de perder aquilo que amava.

Nonô era casado com uma moça bonita do Superagui, conhecida como “Para-Xuxu”. Ela não conhecia a timidez: vestida de chita, inclinava-se nas janelas e distribuía sorrisos aos rapazes que passavam. As vizinhas cochichavam e a evitavam, julgando sua liberdade.

Um dia, um vizinho atrevido chamado “Calça Larga” tentou se aproximar da moça com propostas indecentes. Rejeitado, contou a Nonô que Pica-Pau estava apaixonado por sua esposa, insinuando traição. O coração de Nonô se apertou. O ciúme misturou-se à raiva, crescendo como uma sombra que ameaçava sufocar sua amizade e seu próprio coração.

Naquela noite, após o trabalho, os dois amigos se encontraram no boteco. A fumaça do fumo e o cheiro da cachaça envolviam o ambiente enquanto as palavras se tornavam afiadas. Pica-Pau, com os olhos marejados e voz firme, jurava que nada havia entre ele e a mulher do amigo. Nonô, tomado pelo sentimento que não conseguia controlar, não acreditava.

Quando Pica-Pau deixou o boteco, Nonô o seguiu, escondido na escuridão da estradinha junto ao Rio do Chumbo. O vento frio fazia os eucaliptos rangerem como se avisassem do perigo. Cada passo de Pica-Pau parecia ecoar na noite, cada sombra parecia esconder uma ameaça. Quando o amigo surgiu, ainda tonto da bebida, iluminando o caminho com a lanterna, Nonô saltou à sua frente e cravou a faca. O coração de Pica-Pau parou antes mesmo que pudesse reagir.

Nonô Cabloco confessou o crime e foi preso. Na penitenciária, a verdade veio como um golpe silencioso: Pica-Pau era inocente. Consumido pelo remorso, passou anos aprisionado não só pelo Estado, mas pela consciência. Calça Larga, por sua vez, aproveitou a ausência do amigo e levou Para-Xuxu para morar com ele, sem saber o peso da culpa que carregaria na própria vida.

Anos depois, Nonô encontrou refúgio em São Paulo, no convento dos frades capuchinhos, trabalhando como jardineiro. Tentava, em silêncio, viver com a dor do que fizera, buscando redenção em gestos simples e silenciosos.

No local do crime, uma cruz de madeira foi fincada, conhecida como a “Cruz do Pica-Pau”. Diziam que à noite se ouviam vozes, gemidos e passos invisíveis. Durante o dia, o povo passava fazendo o sinal da cruz; à noite, poucos ousavam atravessar o caminho.

Com o tempo, a cidade mudou: novas ruas, o Rio do Chumbo canalizado e a velha cruz corroída pelo tempo. Mas a memória da tragédia, do ciúme, da amizade traída e do arrependimento permaneceu viva. A lenda da Cruz do Pica-Pau não é só uma história de medo, mas uma lembrança de que sentimentos humanos — amor, ciúme, amizade e culpa — são capazes de marcar a vida para sempre.

Há quem diga também que a Cruz do Pica-Pau é um monumento de lembrança da Revolução Federalista e aos conturbados dias de janeiro de 1894, quando Paranaguá foi invadida pela Armada.

Inspirado no Conto de Elmira Nascimento Barroso.


A Cruz do Pica-Pau Avatar de Hamilton Ferreira Sampaio Júnior

Hamilton Ferreira Sampaio Júnior

Hamilton Ferreira Sampaio Júnior é pesquisador de história e genealogia, formado em Teologia e licenciado em História. Faz parte da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia e do Departamento Cultural do Club Litterario de Paranaguá, sendo também sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá. Atua em projetos históricos de resgate de memória, livros comemorativos e biografias, além de projetos museológicos e pesquisas documentais para segunda cidadania. Seu mais recente trabalho foi o livro comemorativo dos 100 anos da Associação Comercial Agrícola e Industrial de Paranaguá.

A Cruz do Pica-Pau 

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