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Crônicas

A fragilidade das relações

Publicado

em

Por Kátia Muniz

Finalizei a leitura de Amor Líquido, de Zygmunt Bauman. Confesso que fechei o livro e fiquei paralisada, refletindo em que momento o mundo descarrilou e se fizeram valer as fragilidades das relações.

Bateu uma saudade gigantesca de quando os sentimentos afetivos e o amor romântico eram genuínos. 

Geralmente, acontecia assim: o rapaz falava, claramente, com todas as letras, para que não restasse dúvida ou margem de interpretação errônea, que queria namorar. Cabia à garota dizer sim ou não. Enquanto a afirmação ou negação não eram sonorizadas, o gajo suava em bicas, esfregava as mãos e, quando estava próximo de uma síncope, a moça poderia dizer sim ou entregar um beijo apaixonado, confirmando que, dali em diante, seriam namorados. 

E quando a resposta era um “não”? Recebia-se o golpe de frente, juntavam-se os cacos e a vida seguia. 

Da mesma forma, ao terminar uma relação, tudo era verbalizado. O fim costumava causar uma dor insuportável, parecia que a vida tinha acabado ou se tornado cinza, até que o tempo passava, internamente os sentimentos se organizavam e os dias voltavam a ser coloridos. 

Era uma época em que se sofria e se alegrava por amor e ninguém fugia dos sentimentos. Uma geração disposta a vivenciar tais emoções, mantendo sempre a responsabilidade afetiva.

Atualmente, assisti ao documentário “O golpista do Tinder”. Um sujeito fabricado e que se coloca nas vitrines das redes sociais como um bilionário do ramo de diamantes. Simon Levier (nome falso, é claro) dorme e acorda com os objetivos de: seduzir o maior número de mulheres, conseguir a confiança e, a partir daí, aplicar o golpe para tirar dinheiro das vítimas.

Enquanto o documentário avança, percebe-se que ele não encontra entrave no modo de agir. Tornamo-nos alvos fáceis, pois a carência afetiva, o desejo de ter alguém que nos olhe nos olhos e não, simplesmente, responda a uma mensagem de forma mecânica, faz de nós seres em busca do preenchimento de um oco existencial. 

No mundo “touch” das redes sociais, há uma oferta gigantesca de pessoas, são pseudoamigos e seguidores, todos ao alcance dos dedos, num aparelhinho que carregamos conosco como se fosse parte de nós ao mesmo tempo em que a distância física se avoluma. Quem são essas pessoas que estão atrás de uma tela? O que há de verdadeiro nas postagens?

Ninguém mergulha nas relações, permanecemos com medo do envolvimento, tudo gira de forma superficial, não há aprofundamento, nem a necessidade em saber do outro. Assim como, nunca foi tão fácil livrar-se de alguém. Não é preciso dizer nada, muito menos olhar nos olhos, basta clicar no botão bloquear. Basta deixar de responder as mensagens. Basta ignorar, silenciar, sumir.

Disparamos likes, consumimos informações rápidas, buscamos agilidade. Nada que precise pensar muito e dê trabalho. Tudo tão prático que falar sobre sentimento virou algo fora de moda.

Assim, não repousamos em uma relação, muito menos investimos a energia necessária para fazê-la dar certo. Resultado: pessoas não são mais vistas como pessoas, e sim como objetos capazes de atender a determinados desejos.

Avançamos em tantas áreas, mas são nas relações humanas que caminhamos em retrocesso.

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