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Coisas Nossas

Por Christian Barbosa, jornalista e colunista das áreas de educação e cultura.

Quantos negros são necessários para construir um herói branco?

11 de junho de 2019

 

Por Fernanda Peniche (Diretamente da oficina de Educação Patrimonial)

 

Durante o levantamento bibliográfico sobre Manoel Antônio Guimarães, o Visconde de Nácar, para um estudo de caso sobre seu palacete, nos deparamos com inúmeros documentos que ressaltavam a quão magnífica e bondosa era a sua figura. Uma narrativa única, construída para moldar um imaginário.

Perante isso, tendo responsabilidade com uma política de reparação histórica com o povo negro, torna-se relevante retratá-lo, também, como um senhor de escravos, que se beneficiava de mão-de-obra negra, uma vez que, de acordo com a professora e pesquisadora Westphalen (1997), o comendador figurava entre as personalidades parnanguaras com maior número de negros escravizados - mais de 50 -, atrás apenas dos capitães-mor Manoel Antonio Pereira e Manoel Luizino de Nores, e do tenente Manoel Francisco Côrrea.

E nunca houve por parte do Visconde um interesse em mudar a realidade da época, se posicionando contra o fim da escravidão, como apontam Lacerda e Polinari (p. 19): "[...] ele (o Visconde) considerava que a "escravidão era um dos estreios da monarquia, uma das bases da prosperidade nacional", tendo se manifestado contra a Lei do Ventre Livre."

A Lei do Ventre Livre, decretada em 1871, nem se caracterizava como uma das mais justas, já que a escravidão só acabaria quando o último escravo morresse, como apontou o historiador Alencastro, em uma entrevista à BBC Brasil, no ano de 2018. Porém, para aqueles que se beneficiavam do sistema escravagista, perder escravos representava prejuízo econômico.

Entre outras coisas, o Visconde também foi acusado de ser conivente, por lucrar, com o tráfico negreiro pelo capitão inglês Herbert Schomberg após as autoridades locais se recusarem a receber um documento de apreensão dos navios Dona Ana e Sereia, suspeitos de desembarcarem africanos em ilhas próximas de Paranaguá, uma prática ilegal para o período, resultando no incidente internacional contra o navio inglês Cormorant na Ilha do Mel, ano de 1850 (COSTA, 2018). Os documentos a respeito dos traficantes de negros em Paranaguá são escassos, sendo possível trabalhar apenas com deduções e hipóteses.

Entretanto, como já estabelecido inicialmente, o propósito do presente material não é condenar a figura do comendador, mas sim retratá-lo o mais próximo possível da realidade, a fim de proporcionar a construção de um imaginário mais realista a respeito de uma das personalidades mais importantes da história da cidade, visando romper com a reprodução de concepções romantizadas.

 

REFERÊNCIA

BBC Brasil. Abolição da escravidão em 1888 foi votada pela elite evitando a reforma agrária, diz historiador. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44091474>. Acesso em 13 de maio de 2019.

COSTA, Cristiano Rocha Affonso da. “Episódio Cormorant”: Um Pequeno Incidente Internacional de  Grandes Proporções. Jornal de Relações Internacionais. 2018.

LACERDA, M. Thereza B., POLINARI, Marcello.

O Palacete Visconde de Nacar. Instituto Histórico Geográfico de Paranaguá.

WESTPHALEN, Cecília Maria. Afinal, existiu ou não, regime escravo no Paraná?. SBPH. Curitiba. 1997.

Material produzido durante as oficinas de Educação Patrimonial da SECULTUR, orientado pela profª.  Marcela Bettega.

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